O que é Filosofia?

Consegue dizer o que é esta imagem? Foto de Bárbara Guerreira.

Consegue dizer o que é esta imagem? Foto de Bárbara Guerreira.

Este texto é um primeiro ensaio informal para divulgar publicamente parte de um projeto que ainda está em desenvolvimento. 

Em um primeiro momento pode-se afirmar que filosofia é a atividade intelectual caracterizada pela busca sistemática e crítica da verdade. O problema desta visão reside principalmente na qualificação sobre o que, afinal, é verdade; sendo que o próprio conceito de verdade é tema de debate interminável entre filósofos há milênios. Ou seja, se aceitarmos esta primeira visão sobre filosofia, é seguro dizer que nem mesmo filósofos conseguem qualificar o que é filosofia, de uma maneira a estabelecer um consenso entre eles.

Do ponto de vista histórico, filosofia pode ser percebida como a origem dos estudos sistemáticos que visam responder a questões fundamentais levantadas por seres humanos a respeito do mundo físico, da metafísica, da vida, da moral, das artes e da própria natureza humana. Neste sentido, com o passar do tempo a filosofia foi diluída em múltiplas disciplinas, como física, matemática, biologia, química, economia, sociologia, psicologia, linguística, ciência política, entre outras. Consequentemente, existe uma tendência natural entre pessoas de julgar que filosofia é um ramo do conhecimento distinto de outros, como as ciências exatas e as ciências biológicas. Já do ponto de vista social, este modo de percepção fica mais acentuado diante da realidade do mercado de trabalho, no qual muitos filósofos trabalham simplesmente como professores, pesquisadores ou escritores. Mesmo que um filósofo trabalhe como um consultor jurídico, um conselheiro político, um diretor de relações públicas, um publicitário, um jornalista ou um administrador de empresas, pessoas em geral tendem a percebê-lo como um consultor jurídico, um conselheiro, um diretor, um publicitário, um jornalista ou um administrador, mas não como um filósofo. Menos ainda como um profissional da filosofia aplicada. Esta percepção reside principalmente no fato de que discussões claramente identificadas como filosóficas, nos dias de hoje, têm um caráter altamente especulativo ou, pelo menos, sem consenso algum. Com efeito, até hoje os filósofos não chegaram a um acordo sobre o que é, afinal, verdade.

Logo, a ironia da filosofia é que ela foi o ponto de partida para estudos metodológicos sobre o mundo e o ser humano, sendo que esses mesmos estudos promoveram um distanciamento da própria filosofia, no atual sentido acadêmico do termo. 

Quando um físico teoriza sobre a origem do universo, ou um biólogo teoriza sobre a origem da vida, essas ideias são essencialmente filosóficas, mesmo que os próprios pesquisadores não percebam desta forma. A separação entre filosofia e ciência, apesar de suas origens históricas, sociais, institucionais e pragmáticas, não é algo trivialmente perceptível no que diz respeito às finalidades últimas tanto da filosofia quanto da ciência.

A obra mais conhecida de Isaac Newton, por exemplo, é o livro Princípios Matemáticos de Filosofia Natural. A ideia de estabelecer princípios matemáticos fundamentais que regem dinâmicas de objetos materiais sob a ação de forças é algo de caráter essencialmente filosófico. O problema de entender a dinâmica de corpos físicos foi qualificado e respondido por Isaac Newton. Hoje esta obra é percebida como uma das grandes conquistas da física, sendo que na época foi compreendida como um inspirador passo dado pela filosofia natural. Tanto é verdade que o próprio conceito de força, na mecânica de Newton, chegou a ser percebido como um conceito metafísico por pensadores importantes, como Heinrich Hertz e Hermann von Helmholtz.

Em um encontro da British Association for the Advancement of Science, realizado em junho de 1833, o filósofo William Whewell argumentou o seguinte: "Assim como os praticantes de artes são chamados de artistas, os praticantes de ciências deveriam ser chamados de cientistas." Foi então que nasceu o termo "cientista". E rapidamente Isaac Newton passou a ser menos conhecido como simplesmente um filósofo, para então ser reconhecido como um dos mais importantes cientistas de todos os tempos. O distanciamento entre ciência e filosofia deu um importante passo, neste momento, graças a um filósofo. Mas que ninguém jogue a culpa sobre Whewell! Isso porque um filósofo jamais deve deixar de expressar o que pensa, mesmo que seu pensamento seja de alguma forma prejudicial à própria filosofia, enquanto prática cultural. Este é tão somente um exemplo irônico de como o pensamento pode minar o próprio pensamento. Apesar do inegável impacto filosófico da obra de Newton, não é usual entre estudantes de filosofia de hoje o estudo de cálculo diferencial e integral. Cientistas são aqueles que resolvem problemas importantes, enquanto filósofos são aqueles que discutem sobre especulações que estão fora do alcance das ciências, como o sentido da vida, a existência de Deus, a vida após a morte, o livre arbítrio, a natureza metafísica do universo, a utopia política ou o conceito de belo. 

Enquanto um cientista é aquele que sabe (ou pelo menos julga que sabe), um filósofo é aquele que incessantemente busca o conhecimento. A própria origem etimológica das palavras "filosofia" e "ciência" sustentam pelo menos parcialmente esta visão. "Filosofia" deriva do grego φιλοσοφία, ou seja, "amor à sabedoria", enquanto "ciência" deriva do latim scire, que se traduz simplesmente como "saber". O amor à sabedoria é uma postura de questionamento crítico sobre a sabedoria e sobre o próprio amor, enquanto o saber é algo que permite efetivamente resolver problemas. O sucesso da obra de Newton para derivar matematicamente as leis de Kepler passou a ser percebido por muitos como um conhecimento, como uma crença verdadeira: as órbitas planetárias seguem as leis de Kepler por consequência das leis físicas enunciadas por Newton. O filósofo, por sua vez, é aquele que reconhece que existem outras possíveis formulações matemáticas que igualmente permitem descrever as órbitas planetárias, em acordo com os princípios percebidos por Kepler. A teoria da relatividade geral de Einstein é um exemplo bem conhecido de teoria que permite descrever órbitas planetárias semelhantes, sem apelar de forma alguma a qualquer conceito de força. Portanto, forças existem no mundo real ou não? Onde está a verdade no conceito de força?

Páginas escritas à mão por Isaac Newton, contendo cópia de um texto de alquimia escrito pelo norte-americano George Starkey. Fonte: Chemical Heritage Foundation.

Páginas escritas à mão por Isaac Newton, contendo cópia de um texto de alquimia escrito pelo norte-americano George Starkey. Fonte: Chemical Heritage Foundation.

Os estudos alquímicos de Newton costumam ser ignorados por cientistas em geral, como uma espécie de embaraçoso erro intelectual daquele que deu início à ciência moderna. Quase setenta anos após a morte de Newton, em 1796, o historiador James Pettit Andrew se referiu à alquimia como uma "fantástica pseudociência". E foi assim que nasceu a necessidade de se promover uma distinção entre ciência e pseudociência. Mas, diga-se de passagem, filósofos também não conseguem entrar em um acordo sobre qual seria exatamente a diferença entre ciência e pseudociência.

Por enquanto não quero estender esta discussão sobre o papel da filosofia ao longo da história, uma vez que este ramo do conhecimento atinge não apenas a física, mas também as artes, a política e a psicologia, entre muitas outras áreas.

O que desejo discutir aqui é a relação entre dois conceitos que julgo imediatamente oportunos: verdade e solipsismo. 

Colin McGinn é um filósofo britânico cuja carreira foi arruinada por conta de conduta não profissional com uma aluna da Universidade de Miami. Mas antes disso acontecer, ele escreveu artigos e livros que, até certo ponto, parecem convergir para algumas ideias que desejo compartilhar aqui. McGinn considera que a mente humana não tem condições de entender como opera a relação entre estímulos físicos sobre um corpo humano e a consciência associada a este corpo. Para McGinn existe uma lacuna entre a consciência e o corpo físico. E tal lacuna não pertence ao repertório cognitivo da mente humana. Uma consciência que tenha consciência sobre como opera a consciência é tão provável quanto um cão que compreenda o significado de uma vivissecção. Um cachorro pode sofrer por conta de vivissecção. Neste sentido, a vivissecção pode até ter algum significado para o animal: intensa dor. Mas existe uma lacuna entre o estímulo físico produzido pelo procedimento e a dor. Parte desta lacuna é a compreensão sobre o que é uma vivissecção. Talvez por conta disso, McGinn tenha percebido a maneira como humanos tratam animais de outras espécies. Para este filósofo, a espécie humana sofre de solipsismo de espécies: fazendeiros tratam animais como comida, donos de bichos de estimação tratam-nos como meras companhias, ativistas tratam animais como vítimas dos humanos, biólogos tratam animais como máquinas que garantem a sobrevivência de genes. Ou seja, humanos não conseguem perceber animais do ponto de vista dos próprios animais. 

Estendendo esta visão, defendo a tese de que um ser humano não tem condições de perceber qualquer coisa (humana ou não) do ponto de vista desta coisa.

Usualmente solipsismo se refere à crença de que toda a realidade se reduz ao sujeito pensante e suas sensações. E existem aqueles que afirmam veementemente que solipsismo é uma visão filosófica patética, que não merece ser levada a sério. 

Ou seja, solipsismo é um conceito que perturba. E se algo perturba, é porque este algo pode guardar uma informação importante a respeito de nós mesmos. No entanto, a visão sobre solipsismo aqui apresentada é um pouco mais elaborada do que a simples crença de que a única realidade é o eu. A tese aqui defendida é a de que todos os seres humanos agem como solipsistas, independentemente de acreditarem ou não no solipsismo. E esta atitude é a principal responsável pela fragmentação da filosofia em diferentes áreas do saber. Existem diferentes áreas do saber justamente porque cada um percebe a realidade ao seu modo.

Recentemente foi publicado neste site um texto sobre semântica em linguagens naturais e formais, ressaltando a importância que estados internos da consciência têm sobre a maneira como uma pessoa pode entender uma frase que ouve ou lê, ou uma frase que fala ou escreve. E, inspirado nesta visão, foi divulgado neste mesmo site um jogo que permite generalizar a língua portuguesa, de modo que seja possível expressar sistematicamente frases cujos significados desafiam a capacidade humana de compreensão. O objetivo aqui é colocar em teste os limites cognitivos humanos. 

Por que afirmei no início deste texto que "filosofia é a atividade intelectual caracterizada pela busca sistemática e crítica da verdade"? A resposta é simples. O ponto de partida de qualquer investigação filosófica é invariavelmente uma pergunta. E perguntas são comumente formuladas na esperança de se obter respostas. Essas respostas surgem à medida que investigações são feitas, de maneira sistemática e crítica. E respostas, por sua vez, definem conhecimento. Finalmente, para o filósofo, um conhecimento é mais do que uma mera crença. Um conhecimento deve ser verdadeiro. No entanto, não existem evidências contundentes, independentes da vontade humana, de que verdade seja algo presente na natureza. Verdade é um construto idealizado por seres humanos. E cada ser humano tem a sua própria noção de verdade. Basta entrar em uma roda de discussões sobre política ou religião ou educação ou ciência ou filosofia ou biologia para perceber isso. Nem mesmo engenheiros (profissionais conhecidos pelo pragmatismo) são imunes a esta visão. Exemplo bem conhecido é o naufrágio do Titanic, ocorrido mais de um século atrás. Até hoje há discussões sobre o verdadeiro motivo para este navio ter afundado

Até mesmo o próprio naufrágio do Titanic poderá um dia ser contestado. Se uma pessoa adotar a visão de verdade por  correspondência, por exemplo, como garantir que o Titanic afundou em 1912? A teoria da correspondência estabelece que uma afirmação é verdadeira se ela corresponder à realidade. No entanto, tudo o que restará sobre o Titanic daqui a dez mil anos, serão meros registros históricos, se tivermos tanta sorte. Neste caso, o grande naufrágio do século 20 poderá ser algo tão misterioso e vago quanto a mitológica Atlântida de Platão. Afinal, a história de uma embarcação gigantesca, considerada indestrutível e que afunda em sua primeira viagem, é algo que certamente captura a imaginação daqueles que gostam de fábulas. 

Pois bem. Diante disso tudo, não há mais condições de sustentar a visão tradicional sobre filosofia exposta acima. O que se propõe aqui é algo um tanto diferente e que deve provocar reações adversas. Deve provocar reações adversas entre aqueles que confiam profundamente nas maravilhas da mente humana e nas maravilhas tecnológicas que afastam diariamente as pessoas umas das outras, sob um questionável discurso de globalização que apenas redistribui nichos sociais, definindo novas fronteiras ideológicas, cibernéticas, econômicas e culturais.

Filosofia é tão somente uma atividade intelectual que permite a qualquer indivíduo alterar seus modos de percepção sobre o mundo, de forma sistemática e crítica. O que filósofos fazem, ao longo da história, é oferecer uma miríade interminável de ideias sistematicamente organizadas que influenciam as mentes daqueles que estão dispostos a ouvir, ler, refletir e testar ideias, conforme suas capacidades cognitivas e interesses próprios. Neste sentido, matemáticos, engenheiros, advogados e artistas também podem exercer o papel de um bom filósofo. 

Filosofia hoje em dia é uma disciplina acadêmica e, portanto, institucionalizada. E instituições separam pessoas entre aquelas que estão institucionalmente vinculadas e o resto. No entanto, por que não podemos esperar uma visão filosófica vinda de uma fonte sem vínculo institucional? Um poeta não pode oferecer uma visão diferente de mundo?


Texto escrito por Adonai Sant'Anna, Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo.