CSF e Eu

Foto de Adonai Sant'Anna. Composição e edição de Bárbara Guerreira.

Foto de Adonai Sant'Anna. Composição e edição de Bárbara Guerreira.

O Programa Ciência Sem Fronteiras para alunos de graduação foi encerrado pelo Governo Federal. 

Respira! Calma! Pensa um pouco! Pensou? Então (mesmo sabendo que não pensou coisa alguma, pois você só quer saber o que vem adiante), repito. 

O Programa Ciência Sem Fronteiras para alunos de graduação foi encerrado pelo Governo Federal.

Agora exclamo, em extravagante estado mental de absoluta perplexidade. Oh, que horror!

Ui. Ai. Ai, ai, ai. Que horror!

É ótimo falar, escrever, opinar e gritar sobre aquilo que está fora de nosso controle, não é mesmo? Puxa vida, este Governo Federal toma decisões sem qualquer planejamento de longo prazo, não é isso? Sério! Não é verdade? Não é verdade? Diga que não é verdade! Por isso sou tão revoltado! Preciso de uma massagem.

E os alunos de graduação que não conheciam o idioma nativo dos países que visitaram com apoio financeiro dos anônimos contribuintes que estrebucham diariamente em nossas terras? Oh, que horror! Esses pobres-diabos (alunos, claro!) não tinham sequer condições básicas de acompanhar aulas regulares nas melhores universidades europeias e norte-americanas. Por conta disso, muitos simplesmente fizeram turismo às custas do dinheiro que pago com os meus impostos. Meu dinheiro! Minha contribuição diária, mensal, anual, vitalícia! Que horror! Estou horrorizado com esta situação vivenciada por jovens que não conhecem sequer a língua portuguesa! Revoltante! Preciso de um drink.

Alunos que abdicaram do bom uso do cérebro? Alunos cujos cérebros servem apenas para as atividades involuntárias do corpo e para manter instintos previamente programados pela evolução? Ai, que horror! Assim não dá. Quero descer. 

Mas e aqueles jovens inteligentes, de boa formação, motivados, que realmente se dedicam aos estudos? Eles perderão preciosas oportunidades com o fim do Ciência Sem Fronteiras? Eles vão pagar pelos erros dos outros? Eles vão pagar pela má reputação do programa? Eles vão pagar pela má administração do dinheiro de cofres públicos? Claro! Qual é o problema com isso? A vida é injusta? As pessoas são injustas? Então tente viver no meio do mato, pelado, sem comida e sem água! Depois me fale sobre injustiças, quando seu cérebro estiver sendo consumido pelo seu próprio corpo em estado de mórbida inanição. Sorte sua que as pessoas são injustas! Isso porque a natureza lá fora é apenas indiferente a você. E indiferença é a única e verdadeira justiça deste mundo.

Falar sobre decisões e indecisões do Governo Federal é tão legal! Jamais fui político ou governante. Mas adoro opinar sobre essa gente depravada e engravatada. Afinal, nada que governantes façam é culpa minha. Aliás, nada é culpa minha! Sou apenas uma vítima das circunstâncias. Quando cheguei ao mundo, ele já estava bagunçado. Sou Homer Simpson: "Já tava assim quando cheguei!" Não é culpa minha. Tenho o direito pleno de me isentar de toda e qualquer responsabilidade! E ai de quem discordar de mim. Eu grito!

Preciso extravasar. Falar sobre a amiga que traiu a minha confiança é tão terapêutico! Falar sobre o chefe que me trata como escravo é tão gratificante! Falar daquele asteroide que quase atingiu a Terra é tão engraçado. Afinal, alguém realmente sabe quando o mundo vai acabar? Tomara que seja no dia de minha prova de cálculo! E tomara que o asteroide caia bem em cima da cabeça do meu professor.

Citar Schopenhauer é tão intelectual. Reclamar de bullying intelectual é tão tão tão. Falar mal da revista Veja, então, é prova incontestável de minha perspicácia e inteligência. Falar mal da Rede Globo é garantia certeira de empolgantes curtidas no Facebook. Mas se a Globo me oferecer papel de destaque em um programa de televisão, aceito na hora! Isso mesmo! Você chama de hipocrisia. Eu chamo de adaptação. Reclamo porque gosto. Gosto de reclamar e tenho sonhos molhados com aquilo que reclamo. Só espero que não caia asteroide algum em cima do palco de estreia de meu programa na TV. Pelo menos meus amigos têm que ver que virei celebridade!

Sim, sim, sim. Adoro falar mal de quem conheço e de quem não conheço! Adoro criticar! Adoro apontar para os erros dos outros! Adoro ler aquele ensaio que confirma as minhas antigas suspeitas: o mundo está na merda! Preciso de colo.

Odeio jovens anticapitalistas! Tiro o maior sarro daqueles professores universitários que idolatram Karl Marx! Desprezo empreendedores, burgueses, capitalistas e gente competitiva. Detesto radicais. Sou radicalmente contra radicalismo. E se há uma coisa que não tolero, é intolerância. Desconfio de gays! Mas reprovo veementemente homófobos! Sou radical contra a intolerância! Também não gosto de negros com sardas. Mas respeito eles, desde que não discordem de mim. Também prefiro que não me toquem. Na mão pode. No resto, não. E se falarem da minha bunda, acuso de assédio e crio a maior confusão. José Mayer tá na minha mira. Tarado! É o que mais adoro nas minhas opiniões. São sempre consistentes, por bem ou por mal. Se alguém me acusar de irracional, dou uma risada e grito: vá para o inferno! Sempre funciona. Afinal, todo mundo já vive no inferno!

Sou tão sensível, antenado e inteligente! Sou a melhor pessoa que conheço. É claro que a minha vida vale mais do que a sua! Você pode até se achar mais importante do que eu. Mas é só porque não me conhece de verdade.

Conheço tanta gente que concorda comigo! E não são pessoas quaisquer. Alguns são até professores universitários, com Ph.D. e tudo mais. Sei muito bem o que acontece na Venezuela. E sei muito bem que Estados Unidos estão despencando em um precipício. E sei melhor ainda o que é melhor para todo mundo ficar melhor. Sei direitinho, sem margem para dúvida alguma, o que é liberalismo, novo liberalismo, neoliberalismo, liberalismo conservador, liberalismo clássico e funk gaúcho. Aquela gente que discorda de mim é só ignorante. Coitados.

Sou tão popular! Minha última atualização de foto de perfil teve mais de cem curtidas! Todo mundo me ama! Bando de curtidores gratuitos!

O que devo fazer hoje? Devo fazer aquilo que é melhor para mim? Ou devo fazer aquilo que me prejudica menos? Me. Mim. Eu. Comigo. Mimimim. Nada de mimimi! É mim-mim-mim!

Ah, sim. Fico muito sensibilizado com o assustador quadro de fome na Somália. É tão triste ver aquele povinho tão sofrido.

Mas, falando sério, o que devo fazer hoje? Compartilho minhas alegrias ou minhas frustrações? Falo sobre as minhas opiniões ou sobre os meus pontos de vista? Qual das opções fará as pessoas gostarem mais de mim? Acho que hoje fico com a fome na Somália. As pessoas perceberão a minha sensibilidade e a minha cultura. Não sei localizar Somália no mapa. Mas isso é só detalhe. O Google sabe! O fato é que não sou apenas um rostinho bonito e um cara legal que oferece o ombro amigo para quem concorda comigo. Amigo? Comigo? Que legal! Meu amigo tá comigo porque comigo meu umbigo não é ambíguo! Essa frase é muito massa. Tipo, vou compartilhar. Isso porque, tipo, é legal fazer tipo.

Que ninguém diga que falo "tipo" o tempo todo! Que ninguém me diga que tipo é typo fonético! Se disser, mando para o inferno. 

Ciência Sem Fronteiras? Ah, sim. Foi mal. O Governo promete, mas não dá. Dá, mas não deixa ficar. Deixa ficar, mas não faz direito. Faz direito, mas não pra todo mundo. Faz pra todo mundo, mas jamais é o suficiente.

E eu? Como fico? Eu também quero. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. Eu. 

Viver, pra mim, é como estar na fila do pão. Em algum momento chega a minha vez. Por isso fico uma fera quando furam a fila! Ah, tá. Você é diferente de mim, certo? Claro, claro. Não existe futilidade alguma em você. Nada de egoismo. Nada de priorizar o seu bem estar. Tudo pelo bem comum. É um verdadeiro santo. Na hora do vamos ver você abre mão de seus preciosos direitos só para beneficiar o próximo. Tudo bem. Já fui cego também. 

Tá. Mas quando será a minha vez? Quando o Governo Federal vai me dar uma bolsa? Quando o mundo vai me entender? Quando vou ter o meu emprego? Quando vou ter aumento salarial? Quando vou ter o que mereço? Não é justo Cristiano Ronaldo ganhar milhões só pra jogar bola. E eu? Eu jogo damas! Ninguém me vence no jogo de damas! Quando será a minha vez? O ex-diretor da Odebrecht disse que pagamento de propina pra político não podia ultrapassar aquilo que cabia em uma mochila. Poxa, por que eu nunca recebi uma mochila de quinhentos mil reais? Eles levaram tantas mochilas! Basta uma pra mim. Não é justo. Eu também quero. Eu. Eu. Eu.

O professor quer que eu estude todo dia. Pra quê? Tem Google. Tem GPS. Tem aplicativos. Tem corretor ortográfico. Tem calculadora. Que mais precisa saber? Não quero pensar, pô. É meu direito! Meu! Preciso de um abraço.

Cruz de Ferro de Segunda Classe, fabricada por Rudolf Souval, Viena. Acervo particular.

Cruz de Ferro de Segunda Classe, fabricada por Rudolf Souval, Viena. Acervo particular.

 

Rudolf Souval fabricava cruzes de ferro para os nazistas. Continuou fabricando depois que a guerra acabou. Mas quem liga pra história dele? Não tá no Google! Portanto, não existe. Quantas cruzes ele fabricou? Quem recebeu essa medalha? Como foi a vida dele? Souval era nazista? Que interessa? Não tá no Google! Portanto, não interessa. 

Egoísta? Tá me chamando de egoísta? Egoísta é aquele que não pensa em mim! Ponto!

Quero fazer fortuna com canal no YouTube. Quero fazer piada. Tem que fazer rir para rir, não é mesmo, Major Rocha? Quero ser feliz. Quero ganhar rios de dinheiro fazendo o que melhor faço. Não tenho ideia do que faço melhor do que os outros. Mas quero de qualquer jeito. Quero. Quero. Quero. Eu. Eu. Eu. Eu.

Adoro criticar os outros. Jamais critico a mim mesmo. Isso porque não me interesso por mim. Quero que os outros se interessem por mim! Penso no que quero, sem pensar em mim. Este é o meu segredo! Se eu pensar em mim, não vou gostar daquilo que aparece no espelho. Mas se eu tiver o que quero, passarei a gostar de mim. Simples assim. Mim. Assim. Taí. Outra frase legal. Mim sou assim. Tipo, se entendeu, tá valendo. Se não entendeu, vá para o inferno! 

Ciência Sem Fronteiras? É só a bola da vez. Por isso que meu papo é tão antenado! Chega uma bola, e passa outra e mais outra e mais outra e mais outra. É como gol da seleção alemã, montada sobre a seleção brasileira. Ontem foi o plebiscito pela proibição da comercialização de armas de fogo. Antes de ontem foi a polêmica sobre a instituição do divórcio. Depois veio Bolsonaro. Antes veio Fernando Collor. Depois veio Copa do Mundo. Depois veio a Lava Jato. Lula. Golpe. FHC. CIA. LSD. KGB. Trump. Isso sem falar nos assuntos que nunca saem de moda: aborto, racismo, sexismo, futebol, educação, funk. 

Por que pensar sobre quem realmente sou, se tenho um iPhone? Por que pensar sobre mim, se uma selfie mostra tudo o que tenho? Por que pensar sobre o que faço, se tem tanta gente fazendo besteira? Por que pensar sobre o que não faço, se não tenho responsabilidade alguma sobre a fome na Somália? É muito mais legal falar sobre os outros. E esta é a minha opinião! Então, já viu, né? Respeita! Respeita meu tipo e meus typos!

Não me interessa se você gosta ou não da minha opinião. Respeita, pô! Eu. Eu. Eu. Eu. Eu.

Ah, sim. Só mais uma coisinha: Eu!

Preciso de um cafuné.