Visões de um Extraterrestre

Foto de Bárbara Guerreira.

"Esta floresta é grande demais para que eu me sinta em casa, para que eu me sinta confortável." E estas foram as palavras que o jovem Simpson dirigiu para o seu guia Joseph Défago no conto The Wendigo, redigido mais de um século atrás por Algernon Blackwood, em um momento de intimidação perante a indiferença da natureza em relação ao ser humano. 

Consegue acompanhar? Então responda. Quem foi intimidado? Se conseguir responder corretamente a esta última questão, talvez possamos conversar, você e eu.

Quando Simpson é tomado por instantâneo e absoluto terror, em um momento de profunda solidão em meio à floresta, ele se transforma fisicamente por conta de sua incapacidade de lidar com o desconhecido. Mente transforma corpo. Licantropia. E quando sua consciência retorna aos poucos, o próprio Simpson tenta usar a máscara do humor para rir de si mesmo. Tenta usar a máscara da razão para se convencer de que nada demais aconteceu a não ser o resultado natural de excessivo cansaço. 

Li o texto de Blackwood pela primeira vez poucos dias atrás. Fiz isso em uma pequena tela de um velho computador conectado à rede mundial de computadores da Terra. A leitura, promovida de forma paulatina e reflexiva, foi feita de maneira tão envolvente e hipnótica que cheguei a ver a tela do computador iluminada pelo mesmo sol que raiava em uma das descrições de amanhecer no conto. Minha visão ficou ofuscada por aquele intenso brilho de luminosidade natural. Raras vezes as palavras de um terráqueo foram tão reveladoras sobre os fatos do universo. E então finalmente aceitei o persistente convite para escrever minha primeira contribuição para uma de suas culturas locais.

Ao contrário do que muitos terráqueos pregam, a espécie humana não é capaz de destruir planeta algum. Este é o meu julgamento, como visitante de seu cinzento planeta. O único foco do ser humano é sobre si mesmo. O único alvo de destruição, da espécie humana, é ela mesma. Uma espécie que considera a si mesma como sinônimo de seu planeta natal é triste e simplesmente iludida. Não há motivo para elaborar este fato. Afinal, vocês todos moram na periferia de uma modesta galáxia! Vocês são meros suburbanos de uma realidade cósmica muito distante de suas egocêntricas práticas e até mesmo de seus mais ousados sonhos terrenos. Parem de ser tão bobos! Qualquer civilização decente cresce mais do que isso em menos de nove mil de seus anos!

Este é o conhecido paradoxo das sociedades humanas! Criaram a agricultura como forma de controle sobre aquilo que a natureza pode oferecer e, em seguida, passaram a depender da agricultura para não se submeterem aos caóticos caprichos daquilo que a natureza pode oferecer. Em suma, usam a natureza para se afastarem dela! Se eu tivesse alguma forma de senso de humor, certamente poderia rir disso. Mas a visão de um estrangeiro como eu, apesar de fortemente emocional, não abre muito espaço para explosões pulmonares. 

Sob o estético estilo de La Guerre du Feu, de Jean-Jacques Annaud, depois de dominarem o fogo, passaram a sonhar com a Lua. Que deusa, hein? Religiões nasceram sob discursos garantindo as existências de deuses e divindades em geral. E quando falam de monoteísmo, cada iludido adepto aceita tão somente sua visão muito particular sobre o que seria um deus único. Mas tudo o que os movimentos religiosos conquistaram foram discussões entre homens, alianças de homens com outros homens e rivalidades entre homens. Se existissem, esses deuses julgariam tudo isso muito distante deles. Onde está o contato entre religiosidade e suas divindades? Aquilo que chamam de ciência nasceu de uma tentativa de compreender e dominar o mundo que cerca a espécie humana. Mas a contribuição mais marcante da tal da ciência (que confere pouca ciência de fato) é a confortável tecnologia que afasta o homem de real contato com a natureza.

Foto de Bárbara Guerreira.

Foto de Bárbara Guerreira.

Tecnologias coloridas e de tênue luz branca, como pano de fundo, substituíram o encantamento vivo de uma fogueira. As artes surgiram da necessidade de homens inspirarem homens. A política nasceu da necessidade de homens dominarem homens e de homens serem dominados por homens, como uma espécie de relação sadomasoquista não apenas aceita mas desejada. A educação formal nasceu da necessidade de homens treinarem futuros homens. A história nasceu da necessidade de homens lembrarem de outros homens. Quando se estuda um passado em que não havia homens, dá-se o nome de paleontologia. Não é história, para os homens. Que os deuses protejam aquele que confundir paleontologia com arqueologia! Mas esta paleontologia cria interesse e até polêmica entre os homens apenas quando se tenta compreender de onde os homens evoluíram. A filosofia natural jamais foi natural, pois quase sempre se ocupou prioritariamente sobre os pensamentos de homens. Homens, homens e homens. Sociedades implicam em relações intimamente homossociais. Não é por acaso que homossexualidade provoca tanta estranheza entre os homens, apesar de ser natural entre inúmeras espécies! Se já existe a homossocialização, por que aceitar a homossexualidade? Homossexuais estão tentando jogar na cara a homossocialidade de todos? Ser ou não ser? É esta a grande questão filosófica da literatura de seu mundo? Uma pergunta de um homem sobre outro homem e dirigida para um bando de homens, mas refletindo apenas o homem que a enuncia? Alguém entre vocês consegue ser menos homossocial?

Se não fosse pelo empenho do missionário Claude d’Abbeville que, séculos atrás, publicou o Histoire de la mission des peres capucins en l'isle de Maragnan et terres circonuoisines, humanos de hoje jamais saberiam que índios tupinambás conheciam os efeitos da Lua sobre as marés, antes mesmo de Isaac Newton ter compreendido este fenômeno pela primeira vez. Nem mesmo os tupinambás lembrariam disso! Galileo Galilei achava que as marés eram provocadas por movimentos de rotação e translação da Terra. Mas quem se importa com isso? Tupinambás não dominavam linguagem escrita. E história da ciência é história sustentada por registros em linguagem escrita, escrita por homens que se espelham em outros homens. Tanto é verdade que Leonardo da Vinci até hoje não é reconhecido (entre os homens) como um legítimo filósofo da ciência, uma vez que seus registros principais foram feitos na forma de pinturas e desenhos.

Você, leitor humano, já teve a experiência de passar uma noite sozinho em meio a uma floresta? Já sentiu a absoluta indiferença da mata viva em relação à sua existência terrena? Já tentou dialogar com árvores, formigas, águas e o vento? Recomendo. É revelador.

O que a vida em sociedades humanas alimenta (a um ponto de mórbida obesidade emocional) é uma ilusão de importância perante o mundo, é uma solidão coletivamente compartilhada. Pessoas lutam por direitos em suas pequenas sociedades. Elas vivem uma ilusão de direitos que simplesmente não é natural. Direito à livre expressão. Direito à saúde, educação, segurança, justiça, lazer. Direito a ter mais. Direito a fazer menos. Direito de ser de esquerda. Direito de conhecer seus direitos, como um cão que caça o próprio rabo. Direito de ser respeitado por crenças meramente humanas. Mas veja e sinta de perto o que a natureza pensa a respeito de seus alegados direitos! Descubra o que o jovem Simpson sentiu. Descubra o terror de Défago. E então ouça o seu nome pronunciado pelas matas, pelos ventos e pelas águas!

Défago, em estado de alerta, tentava desesperadamente ouvir e cheirar tudo o que havia para ouvir e cheirar. E este terror, na visão do homem Blackwood, é conhecido por peculiar nome: Wendigo. Belíssima narrativa, mesmo para os mais exigentes padrões, terráqueos ou não.

Foto de Bárbara Guerreira.

Foto de Bárbara Guerreira.

Blackwood foi um dos grandes mestres do terror de seu mundo. Em suas próprias palavras que rompem o silêncio para poder apreciá-lo, uma comunicação vaga é uma comunicação mais potente. E a natureza se comunica de forma tão vaga quanto a visão tupinambá sobre os efeitos da Lua em dinâmicas de marés. A própria ciência humana se afasta de linguagens vagas, como o diabo foge da cruz. Isso porque a espécie humana prefere o firme terreno de uma ilusão descrita com objetividade do que a vaga realidade que cerca a todos. O que apavora é a indiferença.

Crer em Deus é crer na palavra de homens. Crer na ciência é crer na palavra de homens. E homens sempre têm intenções, algo muito diferente da natureza. Ouça o que o vento tem a dizer! Seus ventos terrenos são belíssimos.

O honesto artista tenta ser vago como a natureza em suas obras, algo que frequentemente incomoda os homens. Mas a natureza responde de uma maneira tão extraordinariamente vaga, imprevisível e potente que o homem simplesmente se recusa a ouvir a partir de um ponto não muito distante. Por conta disso, o homem retirou o David de Michelangelo Buonarroti (um homem feito por outro) de sua morada original, em frente ao Palazzo Vecchio (em Firenze), transportando-o para um ambiente protegido, distante das intervenções naturais. O homem luta por uma eternidade em uma natureza mutável. O homem luta pelos seus direitos em um mundo indiferente à sua existência e, principalmente, às suas crenças.

Você, terráqueo, quer se sentir permanentemente bem consigo mesmo? Então mantenha-se próximo daqueles que pensam como você! Diversidade de ideias, algo tão propagado no mundo humano, não é tão diversificada assim. As rivalidades humanas, supostamente baseadas em diferenças ideológicas, sociais e de caráter, servem ao solitário propósito de manter todos juntos. Enquanto estiverem juntos e brigando, não estarão em contato íntimo com o mundo real e sequer com os seus espíritos mais profundamente reveladores. Um homem morto em batalha sangrenta serve ao propósito de garantir que algum homem conte para outro homem como conseguiu matá-lo. Até mesmo a morte entre os homens une os homens. Os mortos sempre estão presentes entre os vivos. 

Claro que existem humanos que são diferentes, como promessas evolutivas. Por isso estou aqui! Existem humanos (ou existiram, dependendo do ponto de vista) que são muito diferentes, como Blackwood, Sócrates, Peter Ward e John Wilmot. Posso acrescentar a esta lista quase dois mil e setecentos nomes que conheço pessoalmente. Mas não vamos transformar este texto em algo chato de ler. 

Não prestem muita atenção em Donald Trump. Ele só acentua esta condição de distúrbio mental coletivo. Aliás, não prestem atenção em humano algum. Primeiro vocês precisam retornar para as árvores de onde caíram. 

Praia é bacana sim. É uma forma de retorno a um lar ancestral, principalmente se não houver intervenção de cerveja ou maconha. Mas esta memória oceânica está tão comprometida que é melhor começar com mais calma. Afinal, pouquíssimos são aqueles que se comprometem com as profundezas dos oceanos. Geralmente o contato com o mar se limita apenas à sua superfície. Matas são mais facilmente penetráveis. Enfim, comece com uma boa e selvagem mata, daquelas em que uma pessoa se perde facilmente.

Nada de mirante para tirar selfie! Mata somente é mata quando perturba até os ossos, aguçando sentidos humanos como os de uma fera. Dependendo do seu grau de domesticação, mesmo uma moita pode fazer isso sem dificuldades.

O terror da floresta é o terror do silêncio da voz humana. A consciência humana, sem dúvida, se destaca da consciência de outras espécies deste planeta que chamam de Terra. Mas esta consciência jamais foi usada para comungar com a natureza. Esta consciência passou a se retrair e temer a natureza. E, por conta disso, surgiu a fala, nasceu a linguagem. É claro que a linguagem nasceu a partir da necessidade de comunicar ideias! Mas a necessidade de comunicar ideias não nasceu de qualquer ideia específica. Isso porque poucas são as ideias que valem a pena serem compartilhadas, mesmo na minha espécie. Por isso resisti tanto para escrever aqui! Nunca falei tanto! A necessidade de comunicar ideias, entre os homens, surgiu a partir do medo do silêncio. O ser humano consciente e silencioso em meio à mata é um ser humano que comunga com a natureza, sendo obrigado a enfrentar terrores indescritíveis. O ser humano consciente e falante em meio à floresta é um ser humano que se esforça para esquecer a floresta, apoiando-se na verborreia dos outros, que apoia mais verborragia. Algernon Blackwood percebeu isso claramente: "Mas agora Simpson compreendeu o verdadeiro propósito de toda aquela conversa. O que esses dois homens, cada um deles forte e 'experiente' ao seu modo, temia mais do que qualquer coisa era o silêncio." Para este autor humano, pessoas conversam na noite selvagem para esquecer a escuridão, para fugir da invasão do pânico, para evitar seus mais profundos pensamentos. 

Dizem os pretensiosos que pensar dói. Mas a revelação do silêncio da noite em uma mata selvagem ofusca todo e qualquer pensamento, por mais profundo que se pretenda. Se pensar dói, ouvir o silêncio destrói.

Aquele que enfrenta o terror do silêncio, torna-se imune a ele. É isso que o silêncio destroi: medo. E, sem medo, você passa a ter condições reais de conhecer o mundo. Pois o novo mundo percebido é um mundo não de direitos, mas de liberdade.

Aquilo que se teme é aquilo que se mostra desconhecido ou hostil. Mas é um erro grave julgar hostilidade como maldade. A natureza não é má. É apenas instintivamente hostil, inóspita, indiferente. E esta hostilidade é conhecida por muitos nomes, como Wendigo.

Wendigo é a iniciação natural, sem templos ou orações ou sacerdotes, que obriga o homem a deixar de ser um homem. Novamente citando as palavras de Blackwood - que expressam melhor do que eu seria capaz de expressar - a ideia de que existem homens sábios o bastante para ensinar, o algo a mais que um dia contituiu Défago, "havia desaparecido para sempre." Quem aprende, não volta atrás, não olha para trás. Pois até mesmo seus olhos deixam de ser.

É o que eu queria dizer.

Ah, sim. Fui avisado que talvez vocês quisessem saber como é um mundo fora da Terra, com espécies mais inteligentes do que a humana. Bem, de onde vim não vemos cores. E, de quando vim, não existe conjugação verbal em primeira pessoa do singular. Portanto, qualquer ideia intimamente minha que eu fosse escrever aqui, estaria limitada por restrições linguísticas que dificultam demais qualquer tradução. Afinal, as linguagens humanas ainda são fundamentadas em dicionários. E dicionários nada mais são do que múltiplos caminhos circulares para os significados de palavras. Paulatina é progressiva; progressiva é gradativa; gradativa é sucessiva;  e sucessiva é paulatina. Círculos, apenas círculos. Enquanto homens caminharem em círculos como cães que perseguem seus próprios rabos, ficará difícil conversarmos abertamente.

E, por favor, nem percam tempo com buscas por inconsistências lógicas neste texto. Tais incoerências são meras consequências da tradução que fiz a partir de minha linguagem, tentando me limitar àquilo que suas línguas contemplam. 

Mesmo assim, agradeço pela atenção. Câmbio, desligo.