Mea Maxima Culpa

Tudo bem. Admito. Sou culpada. Sou culpada porque a tarefa foi dada pra mim e eu não a cumpri.

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Assim também não! Peraí. A coisa não é bem assim! Não cumpri com a minha obrigação porque eu não estava sequer preparada pra isso.

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Tá. Tem razão. Eu deveria ter antecipado que poderia dar merda.

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Não exagera! Eu sequer tinha condições de saber da minha própria capacidade pra cumprir a tarefa. É a primeira vez que tento realizar um trabalho como este. Por que não posso tentar pela primeira vez de novo? Se eu conseguir, será a primeira vez!

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Claro! Finalmente entendi o seu argumento, gracinha. Sou culpada porque você me culpa. É isso!

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Tá! E aí o meu sentimento de culpa automaticamente me coloca de fora, me exclui. Agora você simplesmente me rejeita da categoria dos competentes e eu mesma acabo me excluindo. Já se tocou disso? Você acha que me excluiu da tarefa, mas fui simplesmente excluída do desafio de encontrar a minha competência. Isso é justo?

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OK. OK. OK! Eu entendi! Aqui não é escola. Ótimo praqueles que dizem que a rua é a escola da vida. Mas se eu estivesse só, sem estes seus julgamentos draconianos, eu apenas tentaria de novo. Dedicação funciona muito melhor do que talento, quando o talento não se dedica. Eu simplesmente cumpriria a tarefa! Ou, na pior das hipóteses, reconheceria que não sou capaz. Assim, eu mesma aprenderia! Mas a maldita culpa tá no caminho. Você é o culpado pela minha culpa!

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Sim, eu sei. Eu sei que é culpa minha culpá-lo pela minha culpa. Mas culpa não deveria ser emoção. Culpa deveria ser um singelo e sereno reconhecimento de responsabilidade, nada além disso. Pena que meu sentimento de culpa não enxerga essas coisas. Que distância gigante entre razão e emoção!

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Chega! Não aguento mais essa discussão. Preciso ficar só. Preciso relaxar e tentar esquecer isso tudo.


Ah, que alívio. Lar doce lar. Deito na minha cama. Deito. Sozinha.

Relaxo.

Relaxo cada vez mais e um fogo começa a formigar. É um calor que lateja em formigamentos. É um calor que vivo sozinha.

Movimento minhas mãos. Meus dedos. Meus dedos estão molhados.

Toco o meu corpo. Esfrego. Lubrifico. É gostoso. É bom. Bom demais.

Esfrego ainda mais e o calor sobe. Esqueço completamente do mundo.

Gozo.

Gozo um gozo gonzo, ao olhar pros meus pés e perceber que eles estão retesados. Cruzes! Gozo machuca o corpo! Cãibra.

Não foi gozo! Foi só uma centelha. Uma maldita fagulha que já apagou.

Consciência.

Culpa. Nova culpa. 

Estou sozinha e novamente me sinto culpada. Mas que merda!

Quebro as regras lá fora e me sinto culpada. Me masturbo, sozinha, sem ninguém por perto, e novamente me sinto culpada. Meu Id estupra meu Superego e é o Ego quem sofre o pior. Quantas de mim! Não odeio os meus pecados, mas a mim mesma. Deus, como me odeio! Não consigo nem gozar direito.

Meu tesão violou minha moral. Minha moral violenta a razão. A razão fica num canto, quase muda. Não tem força. Por que a culpa nunca chega antes do pecado? Podia pelo menos soar um alarme antes! Nada disso. Ela sempre chega depois. Culpa é um bicho asqueroso. É um animal sempre à espreita, aguardando o ato do prazer, pra comer vida e defecar pecado.

A vida lá fora vive dentro de mim. Não dá pra ficar só. Como faço pra ficar só?

Todos vivem dentro de mim. Moral, vergonha, culpa, excitação, meu chefe, meu marido, meus filhos, minhas amigas, minha amante. Todos falam, todos fazem barulho. Que zona! 

Nunca me senti tão só!

Ninguém pode ser machucado quando está só. Mas a dor tá aqui. Todos eles estão aqui, dentro de mim. 

Maldita culpa! Não me aguento mais. 

Melhor me afastar, pra me ver melhor.