Ad Stultum - A Única Genuína Falácia

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Você realmente sabe a diferença entre um argumento válido e uma falácia? Bem, que tal uma visão crítica sobre o tema? 

Introdução

Existem aqueles que precisam se sentir grandiosamente vitoriosos em uma discussão. Sem esta sensação de vitória sobre os opositores, tais indivíduos se sentiriam intoleravelmente miseráveis. São pessoas que frequentemente usam expressões como "destruí os argumentos de Fulano" ou "fiz Beltrano engolir a seco aquela ladainha toda". Se você for um deles - da tribo "matar, esmagar, destruir" - este texto poderá causar uma certa frustração. 

Em contrapartida, existem aqueles que sentem necessidade de apenas entender o tópico de uma discussão. Estes são indivíduos simples, humanos, com tendências à honestidade intelectual. Se você for um deles, este texto poderá ser igualmente frustrante.

Enfim, não há boas novas nos próximos parágrafos.

Escrevo aqui porque sinto um certo cansaço ao ouvir pessoas alegando com tanta convicção que este ou aquele argumento é uma falácia ad hominem, ad antiquitatem, ad novitatem, ad ignorantiam, entre muitos outros ads. Difícil levar a sério quem tenta encerrar uma discussão citando algum termo em latim, e sem se dar ao trabalho de refletir minimamente sobre o que ouve ou fala. Por conta disso preciso advertir o leitor: cuidado com os convictos! Imbecis jamais hesitam em seus julgamentos.

Do ponto de vista da literatura especializada, uma falácia é um argumento ruim que pode parecer sensato para alguns. Do ponto de vista popular, uma falácia é uma crença comum entre muitas pessoas, porém falsa. Nesta última acepção, designamos por argumentum ad stultum a falácia de que existem falácias. No restante do texto concentramo-nos na acepção acadêmica do termo, para justificar nossa tese central de que falácias são tão reais quanto fadas e unicórnios.

Tradicionalmente, o conceito de "falácia" remonta às obras de Aristóteles (Σοφιστικοὶ Ἔλεγχοι, escrito 23 séculos atrás) e John Locke (An Essay Concerning Human Understanding, publicado em 1689). Muitos outros contribuíram sobre o tema das falácias, como Antoine Arnauld, Pierre Nicole, Isaac Watts, Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Irving Copi retomou essas antigas concepções em seu popular (e pouco preciso) livro Introduction to Logic, publicado em 1961. E até hoje essa confusa classificação de falácias (que varia consideravelmente, dependendo do autor) se mantém bastante difundida em lugares como Wikipedia e Stanford Encyclopedia of Philosophy. Cito estas duas últimas referências da internet porque são bastante procuradas por aqueles que desejam conhecer o tema.

No entanto, se falácias são argumentos ruins, precisamos primeiramente saber o que é um argumento. E, se soubermos o que é um argumento, poderemos questionar se há sentido na diferenciação entre argumentos ruins e argumentos não ruins. Além disso, se um argumento pode ser ruim, existem aqueles argumentos que não são tão ruins assim? Um argumento é como um automóvel? Existem automóveis que são muito bons e outros que são muito ruins. Mas esta discriminação não é um julgamento pessoal? Um automóvel ruim para o leitor pode ser bom para mim! O julgamento depende daquilo que cada um de nós espera de um automóvel. Isso significa que um argumento ruim para você pode ser um argumento bom para mim? Enfim, se soubermos o que é um argumento, precisamos mesmo saber a diferença entre um argumento ruim, um argumento mais ou menos ruim, ou um argumento muito, muito, muitíssimo ruim?

Além disso, como um argumento ruim pode parecer sensato para certas pessoas? Argumentos são como cores? Uma gema que me parece azul pode parecer verde para você? A ciência já descobriu que pessoas diferentes têm percepções diferentes sobre cores. Ou seja, precisamos todos ter as mesmas percepções sobre o que é um raciocínio sólido?

Argumentos válidos

O que é um argumento? O ramo do conhecimento que marcadamente se ocupa do estudo de argumentos é a lógica. Mas a própria lógica se divide em muitos ramos. Em lógica formal, por exemplo, não é usual qualquer distinção entre argumentos ruins e argumentos não ruins. Em cálculos proposicionais e cálculos predicativos (sejam clássicos ou não), argumentos são meras relações entre fórmulas (que satisfazem a certas condições). Só isso! E, do ponto de vista de ramos menos formais da lógica (mais próximos da filosofia especulativa e da retórica), grosso modo, um argumento é uma relação entre afirmações, a qual permite inferir uma nova sentença a partir de afirmações anteriores. 

Porém, tanto fórmulas quanto afirmações são strings de linguagens (formais e naturais, respectivamente). E qual é o papel de linguagens sobre argumentos?

No caso da lógica-matemática, há uma distinção clara e rigorosa entre linguagem e lógica, entre fórmulas e argumentos, sejam estes últimos dedutivos ou indutivos. Mas no caso do discurso em linguagens naturais, esta distinção não é tão evidente assim. Isso porque as linguagens e teorias formais da matemática foram concebidas sob controladas condições de considerável rigor, livres de interpretações mundanas usualmente associadas a limitadas experiências cotidianas. O mesmo não pode ser dito a respeito de linguagens naturais, as quais parecem incorporar elementos lógicos aparentemente indissociáveis delas. Isso ocorre principalmente por influência da dimensão pragmática de linguagens naturais. E vale lembrar que esta dimensão pragmática se refere ao efetivo uso de linguagens naturais. Em outras palavras, significados de frases quaisquer em linguagens naturais dependem de contextos sociais e até psicológicos. Exemplifico.

Considere a afirmação "Meu cachorro morreu ao tentar atravessar a rua". Usualmente parece seguro deduzir, a partir desta sentença, que meu cachorro morreu. Mas agora considere a afirmação "Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados". Podemos, a partir disso, inferir que Jesus morreu? 

Uma pessoa profundamente envolvida com a fé cristã pode concordar com a primeira conclusão (sobre a morte de meu cachorro), mas veementemente discordar da segunda (sobre a morte de Jesus). Isso porque um cristão convicto pode facilmente atribuir significados distintos para o verbo "morrer", dependendo do contexto que este cristão perceber a partir de um diálogo. 

Análise semelhante pode ser promovida sobre um dos mais famosos exemplos de silogismo dedutivo: 

"Todos os homens são mortais. Sócrates é homem.

Logo, Sócrates é mortal". 

Usualmente este exemplo é utilizado na literatura acadêmica para ilustrar um argumento válido. Mas qualquer pessoa poderia facilmente questioná-lo, uma vez que tal argumento é exemplificado em uma linguagem natural. Com efeito, os termos "Sócrates", "mortais" e "mortal" são ambíguos e vagos. "Sócrates" pode se referir ao famoso filósofo grego ou à sua obra, entre muitas outras interpretações possíveis. Neste caso, alguém poderia alegar que o termo "Sócrates" pode estar sendo usado em pelo menos duas acepções distintas, no exemplo acima. Isso poderia ocorrer dependendo do contexto em que o suposto silogismo dedutivo é empregado. Sócrates, enquanto homem, é mortal. Mas Sócrates, enquanto obra, é imortal. 

O leitor pode eventualmente protestar contra esta visão, alegando que o silogismo dedutivo deve ser aplicado de maneira independente de qualquer interpretação das afirmações ou palavras envolvidas. Mas se for esta a crítica, então a visão adotada pelo leitor - para efetivamente compreender o conceito de argumento em linguagens naturais - tem aplicabilidade nula. Com efeito, ignorar a dimensão pragmática de linguagens naturais em uma teoria de argumentação que supostamente seja aplicável a linguagens naturais, é uma postura inconsistente (pelo menos em princípio). E a dimensão pragmática de linguagens naturais é simplesmente indispensável, como bem mostra a experiência. 

Mas, para fins de discussão, digamos que o leitor ainda não tenha se convencido da visão acima apresentada. Afinal, cautelosamente usei a expressão "em princípio", ao me referir à inconsistência na suposta postura do leitor. Digamos que, de alguma maneira muito ardilosa (engenhosa e absolutamente genial!), possamos de fato abstrair os significados de termos e afirmações empregados em um argumento, como "Sócrates" e "mortal" no silogismo acima. Digamos que seja de fato possível ignorarmos a dimensão pragmática de linguagens naturais, quando estudamos argumentos. Neste caso, a pergunta que faço é a seguinte: como foram descobertos esses famosos e inquestionáveis argumentos válidos? 

A identificação de uma falácia depende fundamentalmente da identificação de argumentos válidos. Isso porque uma falácia deveria ser percebida como um argumento não válido. E, se este é o caso, como então foram descobertos os supostos e cultuados argumentos válidos?

Comumente - mas não necessariamente - argumentos são formulados a partir do emprego de conectivos lógicos e/ou quantificadores lógicos. Os conectivos lógicos mais populares são negação (não), conjunção (e), disjunção (ou), condicional (se... então) e bicondicional (se, e somente se,). Os quantificadores lógicos mais comumente conhecidos são o existencial (existe) e o universal (para todo). Neste contexto, o silogismo dedutivo acima mencionado poderia ser reescrito da seguinte maneira:

"Para todo x, se x é homem, então x é mortal. Sócrates é homem.

Logo, podemos inferir, sem risco algum, que Sócrates é mortal."

Ou seja, deve ficar claro aqui que este silogismo dedutivo emprega o quantificador universal (para todo) e o conectivo lógico conhecido como condicional (se... então). 

No entanto, o conectivo condicional não é exatamente um conceito acima de suspeitas. Isso porque, em linguagens naturais, mesmo conectivos lógicos como a condicional são inevitavelmente associados a significados. E será mesmo que não ocorre ambiguidade ou vaguidade alguma nos valores semânticos que atribuímos à condicional?

Em primeiro lugar, no âmbito daquilo que muitos chamam de lógica clássica, existem estreitas relações bem conhecidas entre conectivos lógicos. Por exemplo, afirmar "A e B" equivale a afirmar que "não é o caso que, se tivermos A, então não temos B". E em 1936 George David Birkhoff e John von Neumann publicaram um famoso artigo no periódico Annals of Mathematics, no qual apontam fortes evidências de que a lei de distributividade

"A e (B ou C)" equivale a "(A e B) ou (A e C)",

não vale no domínio da mecânica quântica, apesar de valer na lógica clássica. 

O que isso significa? Existe um amplo e persistente debate sobre a proposta de Birkhoff e von Neumann. Mas, na prática, todo este debate parece apontar para o fato de que nossas noções usuais sobre como empregar conectivos lógicos dependem fundamentalmente de experiências no mundo real. As leis lógicas que definem a lógica clássica encontram um certo grau de verificabilidade experimental. Antes de conhecermos o mundo quântico, tínhamos uma certa maneira de intuir o significado de conectivos lógicos, como a conjunção e, consequentemente, a condicional. Hoje pessoas que apreciam a obra de Birkhoff e von Neumann contestam essas intuições, simplesmente porque nosso contato com o mundo real muda a cada dia. Novas experiências demandam novas visões de mundo. Este é um dos fatores que impulsiona a atividade científica.

Considere, por exemplo, o seguinte silogismo dedutivo, o qual chamo aqui de "silogismo exótico": 

"Todos os homens são mortais. Sócrates é homem.

Logo, Sócrates não é mortal."

Por que usualmente não aceitamos este argumento como válido? A resposta é muito simples e até frustrante. Porque simplesmente chegaríamos a conclusões falsas (não correspondentes com a realidade) a partir de afirmações verdadeiras (correspondentes com a realidade). Ou seja, nossa aceitação ou negação de certos argumentos está fortemente atrelada às nossas percepções do mundo real. Mas, à medida em que nossas percepções do mundo real evoluem (por conta de contribuições científicas como a mecânica quântica), nossas intuições sobre conectivos lógicos e, consequentemente, argumentos, também mudam. Se algum cientista um dia descobrir um fenômeno físico que sugira a validade de nosso silogismo exótico, o status de aceitação social dele poderá mudar.

Outro exemplo, desta vez ligado à sociologia, é o povo Azande, um grupo étnico do norte da África Central. Mesmo confrontados por contradições apontadas por pesquisadores, o povo Azande jamais sente necessidade de revisar suas crenças em feitiçaria. Este fenômeno social não é usualmente interpretado por pesquisadores como mero exemplo de fanatismo religioso, tendo sido motivo de muitos debates. Newton da Costa e Otávio Bueno, por exemplo, chegaram a sugerir, em artigo publicado em History and Philosophy of Logic, que o povo Azande pode adotar elementos de uma lógica paraconsistente (lógica esta, aliás, radicalmente diferente da lógica clássica), a qual permite lidar com contradições que não exijam necessariamente revisões sobre suas crenças místicas.

Ou seja, o significado intuitivo sobre conectivos lógicos (que, por sua vez, afeta consideravelmente qualquer visão intuitiva sobre o que seja um argumento digno de ser levado a sério) depende não apenas de modos individuais de percepção do mundo real, mas também de fatores sociais nem sempre facilmente identificáveis. Uma falácia para o leitor é uma falácia para um Zande (adjetivo relativo ao povo Azande)? 

Se o leitor realmente acredita que argumentos devem ignorar possíveis ruídos causados por ambiguidade e vaguidade de significados de termos na linguagem, sugiro então que estude matemática e apenas matemática. Isso porque argumentos em matemática são simplesmente certas relações entre fórmulas. Não há qualquer distinção entre argumentos ruins ou argumentos válidos. No entanto, os argumentos usados em matemática não podem ser trivialmente mapeados em linguagens naturais. 

Para ilustrar a última afirmação do parágrafo acima, considere o seguinte exemplo:

"Se eu atirar em você com a minha arma, então você morre". 

De um ponto de vista meramente intuitivo, a única circunstância em que a afirmação acima seria falsa é aquela na qual eu disparo a arma e você não morre. Todos os demais cenários possíveis são verdadeiros. Ora, neste caso podemos concluir que ambas as afirmações abaixo são verdadeiras:

"Se eu não atirar em você com a minha arma, então você morre."

"Se eu não atirar em você com a minha arma, então você não morre."

Ainda sob uma perspectiva intuitiva, percebemos que há algo de errado nessas conclusões. Como pode você morrer, se não disparei a minha arma? Como pode você morrer e não morrer? Por que isso tudo ocorre? Simplesmente porque nossas intuições a respeito de conectivos lógicos são tipicamente confusas. 

Se você deseja evitar confusões, limite-se a empregar conectivos lógicos, quantificadores lógicos e argumentos apenas no domínio da matemática. Linguagens formais da matemática não estão sujeitas às dimensões pragmática e semântica que obrigatoriamente definem linguagens naturais. Caso insista em empregar conectivos lógicos na sua linguagem natural, você poderá facilmente se tornar tema de pesquisas sociológicas, ao lado do povo Azande. 

Falácias

Falemos agora de argumentos usualmente interpretados como falácias. Um dos mais populares é ad hominem. Neste argumento uma pessoa nega uma conclusão a partir de um julgamento feito sobre quem chegou àquela conclusão. Desta forma, usualmente ad hominem é tratado como um argumento ruim, pelo fato de não levar em conta o conteúdo efetivamente dito. Exemplo bem conhecido é o seguinte:

"Você não pode falar sobre racismo, pois é branco

e jamais sofreu este tipo de preconceito."

É perfeitamente natural pessoas atribuírem significado para aquilo que ouvem e falam. Mais do que isso, pessoas dependem fundamentalmente de linguagens naturais para se comunicarem e, consequentemente, argumentarem. E é bem sabido que os inevitáveis significados atribuídos a strings dependem de inevitáveis contextos, tanto sociais quanto individuais. Portanto, o que há de tão ruim no argumento ad hominem? Faz parte da natureza das linguagens humanas levarmos em conta contextos, incluindo aqueles que se referem a quem faz esta ou aquela afirmação. 

O brilhante matemático Theodore John Kaczynski, mais conhecido como o terrorista Unabomber, publicou um famoso manifesto no qual defende uma revolução mundial contra a sociedade industrial. Em sua visão, a tecnologia está rapidamente destruindo o ser humano. E algo radical precisa ser feito, para salvar a espécie humana de uma anulação total do poder de cada indivíduo (incluindo a possibilidade de uma total aniquilação a ocorrer ainda neste século). Suas ideias são fundamentadas em certos princípios sociais que Kaczynski apenas assume como verdadeiros, sem jamais justificá-los. Para refletirmos sobre a sua tese central, não deveríamos levar em conta o fato de que Kaczynski foi vítima de uma brutal experiência realizada durante seus anos em Harvard? Kaczynski foi sistematicamente humilhado durante três anos consecutivos pelo renomado psicólogo Henry Murray. De que forma estas experiências exerceram influência sobre as ideias e até mesmo sobre a linguagem do então adolescente Kaczynski? As motivações de uma pessoa não definem a semântica empregada por ela em seu discurso? Difícil crer que o significado do termo "sociedade industrial" seja compartilhado entre Kaczynski e a maioria das pessoas. Se fosse o caso, mais gente estaria praticando atos de terrorismo contra universidades, aeroportos e lojas de produtos eletrônicos. No mínimo, mais gente estaria abdicando da vida moderna.

Obviamente não estamos sugerindo que o argumento ad hominem deva ser obrigatoriamente aceito durante uma discussão. Mas rejeitá-lo, alegando peremptoriamente que se trata de uma falácia, é uma postura inconsistente com as práticas que definem as mesmas linguagens naturais usadas para formular a frase "seu argumento é uma falácia". 

Aquele que rejeita o argumento ad hominem - ou qualquer outro ad rotulado como falácia - não poderia ser percebido como uma pessoa inflexível, fechada à discussão séria e honesta? 

No lugar de simplesmente negarmos o argumento ad hominem, que tal uma solução mais próxima de um diálogo honesto, que busque por genuína convergência de ideias? Exemplifico:

"Sim, sou branco. Por conta disso jamais saberei o que significa ser negro, índio ou esquimó.

Mesmo assim eu gostaria de discutir a respeito de certos aspectos do racismo,

sobre os quais tenho pensado ultimamente."

Ad hominem não é um argumento ruim! É tão somente um argumento. E, como todo argumento, jamais é suficiente do ponto de vista de toda e qualquer pessoa. Se existisse o argumento irretocável, perfeito, implacável e universal, haveria muito menos divergências de opinião neste mundo.

Aquele que acredita que muitas divergências de opinião ocorrem por conta de ignorância, jamais deve ignorar a sua própria ignorância. Não existem sábios neste mundo. Existem apenas aqueles que querem aprender e aqueles que não querem. Existem aqueles que se esforçam para entender e aqueles que querem impor suas ideias.

Conclusão

Não há uma única teoria científica na literatura especializada que caracterize, por princípios ou postulados simples, o que são falácias e como identificá-las. Nem mesmo propostas como a semântica de Montague (que pretendia viabilizar um tratamento formal para linguagens naturais) se mostrou capaz de esclarecer esta questão. No caso de formas não dedutivas de inferência, a situação chega ao ridículo de classificar falácias indutivas como formas fracas de raciocínio - ou seja, mais um juízo de valor implícito e vago para acompanhar o termo "argumento ruim". O que existe na literatura é apenas uma série de listas contendo exemplos genéricos de supostas falácias. Expressões comuns, porém vagas e difíceis de justificar - como "raciocínio correto", "instrumentos retóricos", "falácias formais" e "falácias informais" - apenas tornam o quadro mais confuso ainda. Logo, o conceito de falácia carece de sustentação epistemológica. E, se carece de sustentação epistemológica, carece de racionalidade. Mas, para muita gente nos dias de hoje, garantir a existência de falácias parece tão importante quanto as discussões sobre o sexo dos anjos na Idade Média.

Dissertar aqui sobre cada uma das dezenas de classificações de falácias na literatura seria algo exaustivo e improdutivo. Por conta disso encerramos nosso breve ensaio com um último parágrafo.

O termo "falácia" é tão somente um dos inúmeros sintomas de nossa condição de seres primitivos e belicosos. Enquanto trocarmos acusações uns contra os outros, estaremos apenas confirmando o quão frágeis somos. Afinal de contas, o fato de Kaczynski não justificar seus princípios de desenvolvimento social não significa que suas ideias sejam de algum modo equivocadas. O fato de ele ter matado três pessoas e ferido dezenas de outras, não significa que suas previsões sobre o futuro da humanidade sejam ignoráveis. E o fato de eu usar argumentos para sustentar a tese de que argumentos são questionáveis, tragicamente torna este texto algo de pouca importância neste nosso primitivo mundo. Isso porque minha própria inconsistência garante que minhas ideias também carecem de bases epistemológicas. A bem da verdade, creio que as formas de comunicação mais confiáveis sejam oferecidas pela matemática e pelas artes. Mas este é um tema que pretendo expor neste site apenas no futuro.


Texto escrito por Adonai Sant'Anna, Professor Associado do Departamento de Matemática da UFPR.