O Sábio Ignorado

Selfie de José Galisi Filho

Selfie de José Galisi Filho

"Ideologia não é capaz de tocar o nervo da realidade do novo conhecimento emergente."

José Galisi Filho (1962 - 2016)

O texto que se segue teve a sua primeira versão redigida no dia 08 de abril deste ano. A ideia era usá-lo como gancho para divulgar uma sequência de vídeos que recebi de José Galisi Filho anos atrás. Seria uma forma de homenagem póstuma para alguém cujas ideias mais marcantes sempre permaneceram ignoradas, por uma série de motivos. Como aconteceu com a maioria das pessoas mais próximas dele, fiquei sabendo de sua morte com considerável atraso. Procurei contato com a família deste fascinante jornalista, com o propósito de conseguir autorização para divulgar os vídeos que recebi dele. Após longas negociações via Facebook, e-mails e telefonemas internacionais, decidi não tornar público esses vídeos. Galisi Filho foi uma pessoa que perturbou muita gente, justamente por conhecer e expor os bastidores da vida acadêmica brasileira na área de ciências humanas. Era um cidadão do mundo, apesar da reclusão durante seus últimos anos de vida. Era um homem cuja visão de mundo perturbava a maioria das pessoas, principalmente aqueles que persistem com a desonestidade intelectual que define a vida universitária brasileira. Infelizmente não poderemos expor de forma detalhada as preocupações mais importantes de Galisi Filho. Isso porque essas preocupações são, em sua maioria, indissociáveis de nomes de profissionais e de instituições. Há um volume considerável de análises e denúncias nos vídeos que recebi. E tais denúncias estavam amparadas por documentos guardados em uma pasta que acabou sendo destruída antes que qualquer membro da família ou amigo pudesse ter acesso a ela. Portanto, o que nos resta, neste momento, é prestar uma simples homenagem a um ser humano que poucos souberam apreciar. Para aqueles que venham a questionar o título deste texto, presto um esclarecimento: sábio, no presente contexto, é aquele que consegue questionar racionalmente um corpo de conhecimento relevante vigente, produzindo, desta forma, um novo conhecimento original e importante. No que se refere a atividades intelectuais, usualmente existe ampla divulgação sobre aqueles que, de algum modo, triunfaram em suas obras. Mas o conhecimento sobre aqueles que foram esquecidos também pode conduzir a uma forma de aprendizado. 


José Galisi Filho se graduou em Direito e posteriormente em Letras pela Universidade de São Paulo. Fez mestrado em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas, sob a orientação de Roberto Schwarz. Em 1997 iniciou o doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Leibniz Universität Hannover, Alemanha, sob orientação de Florian Vassen. Concluiu em 2001. Sua especialidade era a obra do escritor Heiner Müller, cuja carreira literária teve início durante a implementação do socialismo na antiga República Democrática Alemã. Foi também um ávido estudioso da obra de Adorno. Estes e outros fatos na vida de Galisi Filho tiveram uma considerável repercussão em suas convicções pessoais e acadêmicas e até mesmo na maneira como ele conduziu a sua vida.

Galisi Filho realizou seu doutorado com bolsa da CAPES, apesar de não ter qualquer vínculo empregatício na época. Desde então nunca mais retornou ao Brasil, a não ser para breves visitas em busca de emprego em diversas universidades de nosso país. Jamais conseguiu.

O início de sua carreira como jornalista foi produtivo. Galisi Filho trabalhou para os periódicos Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e Jornal do Brasil e para as revistas Veja, ISTOÉ e Bravo. Também atuou como docente nas universidades Uninove, PUC-SP e UNIP, antes de realizar o doutoramento. 

Viveu os últimos dezenove anos de sua vida na cidade de Hannover, na Alemanha, onde chegou a trabalhar como carteiro durante uma década, para sobreviver. O restante do tempo de sua estada na Alemanha foi financiado com ajuda social mínima do governo daquele país. Ou seja, viveu durante quase duas décadas em condições muito precárias. No dia 12 de fevereiro de 2016 foi internado em um hospital de Hannover, com insuficiência cardíaca. Não resistiu. 

A família somente foi informada da morte de Galisi Filho três meses depois. 

O objetivo desta postagem é deixar registrada a memória deste importante jornalista e crítico literário que foi intencionalmente negligenciado pelo Brasil e ignorado até mesmo pela Alemanha. 

Suas impressões sobre a vida acadêmica brasileira incomodaram muita gente, especialmente profissionais da área de ciências humanas. Isso porque Galisi Filho era radicalmente contra o típico proselitismo desses profissionais que, segundo ele, jamais tiveram qualquer contato significativo com o mundo real. Algumas destas impressões estão registradas em uma série de vídeos que José Galisi Filho enviou para mim, na época em que eu desenvolvia o blog Matemática e Sociedade. Marxismo e demais ideologias que demandam doutrinação, para fins de implementação social, são discutidas por Galisi Filho nestes vídeos. A obsessão da universidade brasileira em torno das ideias de Paulo Freire também é denunciada. Nomes, datas e locais são explicitamente citados. Conversei com algumas das pessoas denunciadas por Galisi Filho, sem detalhar o que ele pensava a respeito delas. A reação típica foi algo como "Ele era um ótimo profissional. Pena que morreu." Quando pedi por detalhes, essas pessoas preferiram o silêncio.

Foram justamente as postagens publicadas em Matemática e Sociedade que motivaram Galisi Filho a procurar contato comigo. Um dos resultados deste contato foi a veiculação de texto de autoria do diplomata Paulo Roberto de Almeida.

Galisi Filho chegou a um ponto em que ele simplesmente se arrependeu de ter seguido carreira em ciências humanas no Brasil. Isso porque a maioria dos profissionais nesta importante área do conhecimento é dominada por ideologias que não apresentam sustentação racional, obrigando-os a adotar até mesmo estratégias que envolvem perseguição pessoal, para garantir que tais ideologias prevaleçam e que suas vidas profissionais sejam preservadas exatamente como estão: sem relevância, sem repercussão alguma pelo mundo.  Por conta disso, Galisi Filho passou a dedicar os últimos anos de sua vida ao estudo de cosmologia.

Pouco contato tive com Galisi Filho. Algumas de suas críticas reveladas nos vídeos que recebi denunciam evidências de mero preconceito pessoal. Outras, no entanto, certamente merecem investigação. Galisi Filho jamais culpou a si mesmo pelos seus fracassos profissionais, apesar de atribuir a si as suas vitórias. Mas este foi um erro. Afinal, por que demorou tanto para que as pessoas mais próximas descobrissem que ele já não estava mais vivo? Isso ocorreu porque suas marcantes características de cidadão do mundo estavam paradoxalmente entrelaçadas com a postura de um eremita, principalmente durante sua vida na Alemanha.

Até mesmo no mundo virtual da internet Galisi era uma contradição. Mantinha um blog que, em cinco anos, conquistou um milhão e meio de visualizações, mas com apenas trinta e três seguidores e pouquíssimos comentários. Fez um simples comentário no Facebook que lhe rendeu mais de mil e setecentas curtidas, enquanto seu perfil pessoal contava com apenas cinquenta e um amigos. E entre seus contatos virtuais, com exceção da família, até agora não encontrei uma única pessoa que soubesse a respeito de sua morte.

Galisi Filho viveu como um eremita durante quase duas décadas, em lamentáveis condições financeiras e de saúde. Morreu só, aos 53 anos (a idade que tenho hoje). O jornal Folha de São Paulo publicou um breve obituário quase quatro meses após a sua morte. E assim o Brasil e o mundo perderam mais uma chance de aprender algo com alguém que não se contentava com a normatização e a aceitação passiva da mediocridade. 

Resta saber agora se este espírito de inconformismo nos dará uma segunda chance no futuro. 

Que Deus abrigue a sua alma.


Texto de Adonai Sant'Anna