Comendo Rocha

Troca de sementes entre produtores do Vale do Itajaí, SC. Foto de Bárbara Guerreira.

Troca de sementes entre produtores do Vale do Itajaí, SC. Foto de Bárbara Guerreira.

Um dos ingredientes indispensáveis para sustentar qualquer atividade humana é comida. Onde há fome, não há ciência, nem educação. Não existe filosofia nem artes, sem comida. A fome mata não apenas pessoas, mas também todas as culturas humanas que ela atinge. A Revolução Verde do século 20 salvou a maior parte da humanidade, permitindo que 90% das pessoas em nosso planeta tenham o que comer. Mas esta mesma revolução coloca o século 21 sob uma nova ameaça à sustentabilidade. E aquilo que ainda comemos, bem como o ar que respiramos, pode estar influenciando nas formas de pensar e agir de cada um de nós, afetando tomadas de decisão sobre o que fazer com a produção e distribuição de comida.

A agricultura foi criada e desenvolvida pela humanidade como forma de evitar extrativismo (para fins de sobrevivência) e garantir sustentabilidade de comunidades humanas. No entanto, os atuais modelos de agricultura praticados pela maioria dos produtores rurais demonstram fortes evidências de não serem adequados para as necessidades do século 21, podendo ser até mesmo prejudiciais para o futuro de todos nós.

Por um lado, existe hoje uma queda mundial na qualidade e na quantidade de solos apropriados para o cultivo de alimentos. E isso ocorre em um planeta onde a população humana continua a crescer todos os dias. Por outro lado, a receita mais usada para fertilização de solos foi criada no século 19, pelo químico alemão Justus von Liebig, um dos fundadores da química orgânica. Trata-se da famosa receita NPK, uma abreviação para Nitrogênio, Fósforo e Potássio, macronutrientes necessários para plantas em geral. Mas hoje se sabe que esta mesma receita tem sido responsável pela liberação de elevados níveis de óxido nitroso na atmosfera, um gás incolor (usualmente empregado como agente anestésico) cuja molécula equivale ao potencial de efeito estufa de cerca de trezentas moléculas de dióxido de carbono.

Para piorar o quadro, o emprego de defensivos agrícolas tem sido responsável por contaminação de solos e água e pela diminuição do valor nutricional de alimentos, bem como por duzentas mil mortes por envenenamento ao ano em todo o mundo. São pessoas que morrem involuntariamente (e desnecessariamente) em favor da vida da maioria.

Neste momento é importante observar que o uso de fertilizantes sintéticos e defensivos agrícolas nos dias de hoje faz parte de um pacote de medidas que teve início com a Revolução Verde. Alavancada na primeira metade do século passado, a Revolução Verde rendeu o Prêmio Nobel da Paz para Norman Borlaug, em 1970, por ter evitado a morte por inanição de um bilhão de pessoas no mundo todo. Isso significa que este modelo teve sim o seu mérito, cujos frutos colhemos até os dias de hoje. Mas, como era de se esperar, a natureza responde às ações do homem de forma nem sempre previsível. E mudanças precisam ser colocadas em prática, se levarmos em conta o atual estado da produção de alimentos.

Portanto, diante desta situação, a pergunta natural é: o que fazer para evitar que mais gente passe fome no futuro?

Recentemente os criadores do site Eclipse visitaram o município de Agronômica, no vale do Itajaí, interior de Santa Catarina. Participamos de uma reunião na qual estavam presentes várias pessoas ligadas direta ou indiretamente à produção rural da região. E o assunto da reunião era um só: ardósia.

O biólogo brasileiro Bernardo Knapik comandava aquele encontro, no qual se discutia sobre os benefícios do emprego de pó de pedra na produção rural de cebola, fumo e mandioca, entre outras. 

A ideia de Knapik é simples. Pó de ardósia é um resíduo natural produzido por pedreiras que trabalham com esta rocha. Este resíduo pode ser comprado a R$ 35,00 por tonelada e simplesmente jogado sobre plantações, desde que certos cuidados sejam tomados. O resultado é uma produção maior, mais bonita, de melhor qualidade nutritiva, com maior resistência contra pragas, de baixo impacto ambiental e mais barata. 

O estudo e o emprego de pó de pedra na agricultura e até mesmo em processos de reflorestamento não é novidade. Mas é ainda pouco conhecido, tanto por agrônomos quanto produtores. A literatura científica se concentra predominantemente sobre estudos do pó de basalto administrado como fertilizante. Em geral, pesquisadores recomendam que pó de basalto seja empregado de maneira combinada com a fertilização NPK ou outras formas de adubação. 

Os países nos quais encontramos maior emprego de pó de basalto são aqueles que evidentemente demonstram maior necessidade de técnicas alternativas para o bom uso de suas terras. Existem resultados espantosos de reflorestamento no Panamá, e de agricultura em Zimbábue, Quênia, Uganda e Brasil.

No entanto, pó de ardósia na agricultura parece ser assunto menos conhecido ainda, exceto entre alguns produtores de Agronômica e seus arredores, bem como comunidades pelas quais Knapik trafega. 

Segundo Knapik, a ardósia apresenta considerável vantagem sobre o basalto, no que se refere à distribuição de nutrientes no solo que possam ser absorvidos por plantas: sua solubilidade na terra é maior. Além disso, existem consideráveis reservas de ardósia em nosso país. 

Mapa de qualidade de solos no mundo. Fonte: Food and Agriculture Organization of the United Nations.

Mapa de qualidade de solos no mundo. Fonte: Food and Agriculture Organization of the United Nations.

O emprego de pó de pedra sobre plantações apresenta as seguintes vantagens em relação à fertilização química NPK e defensivos agrícolas:

1) Não precisa de aplicação parcelada. Comumente a fertilização NPK exige aplicações mensais sobre terras cultivadas. Além disso, o emprego de fertilizantes químicos não permite necessariamente distribuição homogênea, mesmo em terrenos planos. Fertilizantes químicos depositados próximos de troncos ou caules, por exemplo, podem provocar altas concentrações de sais que, em época de pouca chuva, queimam as raízes, matando plantas. A fertilização com pó de pedra apresenta a vantagem de que os nutrientes oferecidos pelo mineral são liberados pouco a pouco (dispensando parcelamento) no solo e durante grandes períodos de tempo, dependendo da granulação deste pó. E o risco de danos a plantas é nulo, uma vez que os nutrientes são naturalmente disponibilizados de forma lenta.

2) Oferece uma variedade maior de nutrientes para a lavoura. A fertilização química é sustentada em um paradigma que estabelece uma quantia mínima necessária de três macronutrientes e uns poucos micronutrientes para plantas. Já a fertilização com pó de rocha oferece uma quantia consideravelmente maior (na ordem de dezenas) de nutrientes, incluindo macro e micro. Entre eles, há potássio, cálcio, magnésio, cobre, zinco, manganês e silício. Além disso, estudos recentes apontam para o fato de que certas rochas derivadas de elementos marinhos do período cretáceo, comuns em florestas do nordeste californiano, liberam nitrogênio quando quebradas. E nitrogênio é um nutriente fundamental para o sequestro de carbono, processo indispensável para plantas realizarem fotossíntese. Até poucos anos atrás não se suspeitava que rochas pudessem exercer influência significativa sobre o clima global. Hoje já se admite esta possibilidade, associada até mesmo à eficiência de florestas no processo de sequestro de carbono. No caso específico da ardósia, é importante lembrar que esta rocha é composta por argila ou cinza vulcânica que foi submetida a pressão e temperaturas baixas ou moderadas ao longo de muito tempo, eventualmente apresentando fósseis de micro-organismos em sua composição. Isso tudo significa que mais estudos precisam ser promovidos para compreender o papel de rochas sobre o clima e sobre a agricultura.

3) Oferece uma proteção natural para plantas, diminuindo ou até dispensando a necessidade de defensivos agrícolas. Rochas como ardósia e basalto são ricas em silício, um elemento sistematicamente ignorado por receitas usuais de fertilização química. E silício é um elemento que fortalece tecidos naturais de plantas, tornando-os mais resistentes contra a ação de intempéries e até mesmo pragas. Depoimentos de produtores confirmam o aumento de resistência de folhas que cresceram em terras adubadas por pó de pedra. Além disso, especialistas da ONU já recomendam banir o uso de pesticidas da agricultura.

4) É mais barato. Brasil é o segundo maior produtor mundial de ardósia. Além disso, comumente produtores podem contar com fontes locais de pó de pedra, diminuindo custos de transporte. Um dos motivos para alguns produtores de Uganda estarem empregando pó de pedra como fertilizante reside nos elevados custos de fertilizantes químicos para agricultores, os quais chegam a pagar US$ 500 pela tonelada de um produto que custou US$ 90 para o fabricante.

5) Equilibra o pH do solo. A maior parte dos solos brasileiros sofre do problema de acidez, um fator que prejudica a produtividade agrícola. Tanto pesquisadores quanto produtores confirmam que pó de pedra usada em plantações dispensa a necessidade de aplicação de calcário, a alternativa mais usual para esta finalidade. 

6) Baixo impacto ambiental. Segundo Peter Van Straaten, da Universidade de Guelph, Canadá, a aplicação de pó de pedra apresenta baixo impacto ambiental. No entanto, este ponto é delicado, uma vez que pó de pedra ainda é pouco usado na agricultura. Além disso, se colocado em excesso ou sem uma análise preliminar do solo e da rocha, existe a possibilidade muito real do agricultor simplesmente cimentar o solo, tornando inviável o crescimento de plantas. 

Os depoimentos que coletamos de produtores de Agronômica e região são extremamente favoráveis. E muitos deles usam apenas pó de pedra, sem qualquer complemento. Experiências semelhantes têm sido realizadas também em outras regiões de nosso país, incluindo Minas Gerais. 

O fato é que uma parceria maior deve germinar entre agrônomos, geólogos e químicos, para que saibamos o que realmente fazer no futuro. Brasil, em especial, é um dos poucos países do mundo cujas fronteiras agrícolas podem ser aumentadas. Mas ainda é uma nação na qual agrônomos são conhecidos como meros intérpretes de normas. Sem pesquisa de qualidade, com alcance internacional, nosso mero potencial natural pouco vale em um mundo que sente necessidade crescente de comer. 

Em 2013 foi aprovada a Lei 12.890, na qual remineralizadores (resíduos de rocha) foram incluídos entre as categorias de insumos agrícolas. No ano passado, a Instrução Normativa número 5 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento regulamentou esta lei, estabelecendo definições, classificação, especificações e garantias, tolerâncias, registro, embalagem, rotulagem e publicidade desses insumos. No entanto, a iniciativa desta extraordinária legislação surgiu por parte de geólogos ligados ao Ministério de Minas e Energia, que trabalham desde 2009 em benefício da produção agrícola de nosso país. 

Bernardo Knapik estuda pó de rocha há mais de vinte anos. As ações dele têm sido predominantemente locais, em favor de pequenos produtores. E este tipo de iniciativa está em plena sintonia com os atuais discursos da ONU, os quais procuram estimular a produção doméstica de alimentos. E Bernardo Knapik é professor aposentado, de escola pública. É um professor que frequentemente encontra dificuldade para ser ouvido por conta do fato de não possuir um título de doutor.