Um exemplo de adaptação honesta

Foto originalmente publicada no site ambientelegal.

Foto originalmente publicada no site ambientelegal.

Nada mudou nos últimos dez mil anos. Ainda vivemos em tempos difíceis que ameaçam assustadoramente qualquer noção de estabilidade social. Neste contexto, temos recebido questionamentos frequentes, principalmente de jovens, sobre como lidar com a atual decadência de tradicionais instituições que representam as artes, as ciências, a educação, a justiça, a segurança, a saúde, a política e, principalmente, a cultura do povo em geral. Por conta disso, cremos que uma boa fonte de inspiração para os jovens é tornar público os exemplos pontuais que funcionam bem, particularmente em nosso país. Maurício Tuffani é um desses exemplos. Ele jamais foi indicado ao Nobel, apesar de ser um amante das ciências. E trabalha em uma das atividades menos compreendidas (e paradoxalmente mais criticadas) nos dias de hoje: jornalismo. Isso porque o que mais se percebe na era da informação é uma crescente desconfiança sem precedentes com relação à informação. Por conta disso, o site Eclipse convidou Tuffani para conceder uma entrevista. E, em meio à sua intensa rotina de trabalho, ele encontrou tempo para conversar conosco. Sentimo-nos honrados por esta oportunidade que deve beneficiar nossos leitores. Afinal, a coisa mais preciosa que uma pessoa pode dar a outra é o seu tempo. Com a palavra, Maurício Tuffani.  

Eclipse: Antes de se dedicar ao jornalismo científico, você estudou matemática e filosofia na Universidade de São Paulo. Por que abandonou a ideia de seguir uma carreira acadêmica?

Tuffani: Passei a perceber a universidade cada vez mais como um ambiente protegido, no qual as pessoas podem agir sem sofrer as consequências de seus atos. E isso aconteceu em um contexto de acirramento político que contaminava as discussões em geral. Ao mesmo tempo, eu percebi também, mas mais demoradamente, que eu jamais estaria satisfeito sendo um profissional comprometido com estudos sobre os mesmos temas durante muito tempo. Nesse aspecto, o jornalismo se mostrou uma alternativa muito mais adequada.

Eclipse: No jornalismo brasileiro não existe uma espécie de ambiente protegido também, no qual profissionais podem veicular matérias tendenciosas sem sofrer consequências de seus atos? 

Tuffani: O jornalismo, e não só o brasileiro, durante muito tempo proporcionou um ambiente muito protegido para jornalistas perpetrarem enviesamentos. Creio que isso diminuiu com as novas tecnologias, que romperam com o fluxo unidirecional da informação, que deu ao cidadão comum a possibilidade de ser também publicador de conteúdos. Isso não só reduziu o poder de editores na condição de "gatekeepers", mas também expôs cada vez mais as inconsistências e até mesmo vulnerabilidades ainda maiores do trabalho da imprensa. Não que tenham diminuído os abusos, mas eles se tornaram cada vez mais expostos, minando a credibilidade de determinados veículos e de muitos profissionais, que têm sido considerados por parte expressiva do público como comprometidos com grupos de interesses políticos ou econômicos. Veja, por exemplo, a dificuldade que o jornalismo vem enfrentando agora para se mostrar como fonte segura para o combate à indústria dos chamados "fatos alternativos". Enfim, a imprensa também é um ambiente protegido, mas creio que a academia é um caso muito mais grave, ainda mais no Brasil, onde grande parte de sua comunidade vive sob a conjunção de duas burocracias e culturas, a acadêmica e a do serviço público. Mais do que em outros países, universidade brasileira continua mostrando, por meio de fatos mal explicados e do seu quase absoluto silêncio coletivo sobre eles, fazer jus à sua origem eclesiástica medieval.

Eclipse: Você trabalhou para alguns dos veículos de comunicação mais importantes do país, como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Revista Galileu e Scientific American Brasil. Por que decidiu investir no jornalismo independente, com o site Direto da Ciência

Tuffani: O primeiro, e talvez um dos fatores mais importantes nessa decisão, foi a opção pelo conteúdo de acesso livre gratuito na internet, que não existe na maior parte dos veículos da imprensa convencional. O jornal britânico The Guardian é um bom exemplo de exceção. Eu recebia cada vez mais reclamações de pesquisadores e professores que queriam compartilhar links de meus artigos e reportagens, mas seus destinatários não conseguiam acessar esses conteúdos. E constatei o surgimento de um contingente de apoiadores de iniciativas de produção de informações de livre acesso.

Outro fator que me levou a esse caminho foi querer ter plena liberdade editorial para mencionar e até criticar o trabalho de outros jornalistas e veículos de comunicação. Uma de minhas primeiras reportagens em Direto da Ciência foi justamente a falta de uma perspectiva crítica sobre os dados da crise hídrica em São Paulo na produção de algumas reportagens de jornais como Folha, Estadão e O Globo. Na imprensa convencional, no mundo todo, por razões compreensíveis, todas as menções a outros veículos passam por um controle. Nunca tive restrição ou negativas sempre que quis citar outros jornais. A principal dificuldade com esse tipo de abordagem ocorria geralmente quando decidia escrever, por exemplo, um texto opinativo nas primeiras horas do dia e querer publicá-lo o mais cedo possível, antes de sair para algum compromisso. Mas, independentemente disso, estar em um veículo e comentar sobre outro sempre pode parecer estar agindo de acordo com o interesse do patrão ou de algum chefe. Por essas e outras razões, e sob determinados aspectos, a carreira solo é uma alternativa mais interessante e instigante.

Eclipse: Qual é o maior desafio para um jornalista independente?

Tuffani: O problema maior para mim está sendo o financiamento da operação. Cheguei a fazer parcerias que resultaram em contrapartida financeira, mas não consegui manter satisfatoriamente o foco no meu próprio site. Comecei a captar recursos por meio de assinaturas e doações, que estão ajudando, mas ainda são insuficientes.

Eclipse: De acordo com Theodore Glasser e James Ettema, em artigo publicado no Journalism Studies, o maior problema da ética em jornalismo não é a inabilidade de diferenciar o certo do errado, mas a inabilidade de falar de forma articulada e reflexiva. Como você percebe esta visão?

Tuffani: Não conheço o trabalho desses autores, mas a conclusão que você atribui a eles reforça minha convicção de que ética e técnica são indissociáveis quando o pensamento vai aos fundamentos não só do que problematiza, mas também do que tematiza. (Na verdade, tenho geralmente a desconfiança e às vezes até mesmo a certeza de que argumentos referentes à ética são muitas vezes apelos, desprovidos de uma atitude reflexiva, a códigos de conduta. No final das contas, como dizia Nietzsche, o que há é o sacerdote com o dedo em riste dizendo "tu deves".) Isso vale para todos os campos do conhecimento e para todas as atividades intelectuais. A crescente superficialidade, seja devida à deficiência crescente da formação cultural – que é mais abrangente na vida que a formação por meio do ensino –, seja pela pressão para fugir de complexidades reflexivas está contaminando a sociedade em todos os níveis, inclusive no da pesquisa científica. É impressionante, por exemplo, como a relevância tem sido cada vez mais desprestigiada como critério para aceitação de papers por um periódico ou para que uma proposta de tese seja aceita por um programa de pós-graduação. Essas aceitações são rupturas com o ethos perceptíveis quando não se perde a da perspectiva de um pensamento que vai aos fundamentos de seus temas e problemas. No caso do jornalismo, além dos casos inegáveis de "rabo preso", há também transgressões do ethos decorrentes de escolhas prejudicadas por limitações reflexivas que se tornam também limitações cognitivas e de expressão.

Eclipse: Como a ciência em nosso país está sendo tratada hoje em dia? Para onde a ciência brasileira caminha?

Tuffani: No que diz respeito à parte que cabe ao poder público e também à iniciativa privada no Brasil, não há dúvida de que é crescente a falta não só de compromisso com a responsabilidade de investimento e manutenção da pesquisa, mas também de compreensão do papel da P&D como força produtiva, especialmente no que se refere à competitividade da economia. Apesar de sermos ainda uma das maiores economias do mundo, nosso capitalismo é "meia-boca", salvo as honrosas exceções que só confirma a regra. E engrossa cada vez mais esse nó que impede o círculo virtuoso entre a pesquisa, a inovação e a economia. Dentro dessa falta de perspectiva de saída desse cenário, os governos têm se limitado a evitar reclamações na destinação de recursos, distribuindo-os miserável e quase homogeneamente – exceção a poucos grande projetos, como o Sirius – em vez de assumirem que muitas propostas de pesquisas não deveriam ser financiadas só porque há acadêmicos que acham que também merecem um lugar ao sol. No final das contas, há todo um amontoado de instituições de ensino superior, inclusive públicas, que adquiriu status de universidades – e que no caso das particulares aconteceu muito mais para ter autonomia didática e um port-folio mais diversificado de negócios – e que é obrigado a fingir que realiza pesquisa. No que diz respeito à própria "comunidade científica", reconheço, antes de tudo, os exemplos de pesquisadores brilhantes e que exercem essa atividade muitas vezes em condições completamente adversas. Mas, essa comunidade infelizmente tem sido em grande parte e cada vez mais contaminada por profissionais que poderiam, como professores, atender medianamente às exigências de formação de quadros para o mercado de trabalho, mas são obrigados a "cumprir tabela" como pesquisadores. Em vez do exercício do pensamento crítico para transformar a realidade em que vivem, o que eles alimentam é a cumplicidade com a distribuição de migalhas quando há recursos, o conformismo com a mediocridade e a cumplicidade com a corrupção acadêmica por meio do silêncio travestido de preservação da autonomia universitária. Felizmente começo a ver iniciativas de ruptura com essa ordem das coisas, como os professores da Unicamp que, após não conseguirem impedir desvios nem apurações de responsabilidades na sua universidade, levaram os casos para o Ministério Público.


Esperamos que o leitor tenha de fato compreendido todos os propósitos desta entrevista. Aquele que reclama do jornalismo preso por compromissos econômicos ou ideológicos deve tomar uma atitude concreta que encontre sintonia com as suas palavras. Então, por que não apoiar de fato o trabalho sério de um jornalista sério e independente? Clique aqui e apenas faça a sua parte.