Os Novos Homéridas

Joseph Barbosa é leitor do site Eclipse. Ele tem 22 anos de idade. Cursou três anos de Física na Universidade Federal do Paraná e agora estuda Letras Português/Grego. É um apreciador das cantatas de Bach e está determinado a traduzir para o nosso idioma a monumental obra Der Messias, do poeta alemão Friedrich Gottlieb Klopstock. Para o leitor ter uma ideia da envergadura deste projeto, confira aqui uma versão digitalizada deste poema obtida a partir de um volume disponível na Universidade de Oxford. Também planeja traduzir o clássico Almagesto, de Claudio Ptolomeu. 

Barbosa entrou em contato com um dos administradores de Eclipse, pedindo para publicar texto de sua autoria sobre o hábito da leitura. Ele ancora seu discurso nos clássicos poemas de Homero. Não havia dúvida alguma. O ensaio abaixo não apenas engrandece o projeto Eclipse, como também mostra de forma clara que alguns indivíduos da geração Facebook têm algo mais a oferecer, sem perderem tempo com múltiplos selfies e postagens egocêntricas travestidas de discursos de consciência social e política. 

Vez ou outra nos deparamos com obras artísticas da cultura pop inspiradas nas criações de Homero. Um dos exemplos mais recentes é a comédia O Brother, Where Art Thou?, dos irmãos Coen. Outro é um episódio da série de TV The Simpsons. No entanto, esses produtos de consumo rápido e indolor jamais poderiam substituir o conhecimento bebido diretamente da fonte. 

Com a palavra, nosso mais recente colaborador. 


Os Novos Homéridas

Joseph Barbosa

 

Desde Homero existem pessoas como que incumbidas de serem depositárias da paixão que as epopeias produzem em certos espíritos, de serem mantenedoras de um prazer que não deveria ser esquecido. Os poemas homéricos não foram feitos para aqueles que não gostam do trabalho árduo e não possuem o gosto pela leitura.  E é triste notar que os Homéridas praticamente desapareceram do mundo. É claro que digo “Homéridas” no sentido de pessoas que gostam de Homero. Os Homéridas reais eram repetidores dos poemas homéricos, os chamados rapsodos. Existem inúmeros estudos sobre a cultura do tempo de Homero, sobre a passagem da oralidade para a escrita, sobre os próprios poemas, que a quantidade encheria várias bibliotecas. Mas nunca houve intenção da minha parte fazer disso um estudo sobre a Ilíada e a Odisseia, bem como de outros poemas atribuídos a ele. O problema dos meus textos é o mesmo problema que tenho ao entrar numa sala escura: procuro a luz e, topando com coisas que aparentemente não sabia estarem ali, me desespero. E se bem que a analogia não seja muito clara (só vou saber ao terminar de escrever), não creio que eu seja o único a notar que hoje ninguém mais dá a mínima para Homero.

Bom, não conheci Homero tão tarde. Com quatorze anos adquiri minha primeira tradução da Ilíada numa das feiras do Largo da Ordem. A República, de Platão, veio junto e, como uma criança que era, acabava me gabando de possuir duas coisas que sabia que poucos possuíam. O tempo foi passando e só fui lê-los com quinze. Quando comecei a ler a Ilíada (era a tradução de Manuel Odorico Mendes), levei dias para passar das primeiras folhas, olhando as notas praticamente toda hora, acabando por me convencer de que eu ia conseguir entender de qualquer jeito. Lembro que demorei muito a compreender as fórmulas, a linguagem, os nomes, a trama, a ordem. Terminei de ler com a sensação de que tinha de haver algo mais. Ninguém que lê Homero pela primeira vez se sente satisfeito com o pouco que entende. Durante quatro meses me dediquei a lê-lo com calma e método mais duas vezes. Conforme fui lendo, as coisas começaram a fazer sentido, o ritmo fluía mais fácil, menos truncado, e no final acabei me perguntando como eu não tinha entendido toda aquela linguagem na primeira vez. Não digo que não foi difícil. É claro que foi. A tradução de Odorico Mendes é considerada a mais bela em português, e com razão. Recordo perfeitamente muitos versos de cor do primeiro canto, lembro de passagens que torço para os gregos, outras para os troianos. Admiro o valor que se impõe no meio da batalha entre Diomedes e Glauco, respeitando a hospitalidade um dia trocada entre os antepassados dos dois, e, além das cenas das pugnas dos heróis, comove-me o último canto, no qual Príamo, dolorosamente, vai até Aquiles, no acampamento grego, sozinho, pedir que lhe devolva o corpo do filho para as exéquias dignas dele. O poema termina com uma nota tão trágica que até o tradutor conseguiu impô-la aos nossos olhos portugueses. Os últimos vinte versos são de uma beleza atemporal. 

 

Ligam presto às carroças bois e mulo, 
Juntam-se ante a muralha. Ingentes cargas
De lenha acarretando nove dias, 
Ao décimo entre lágrimas levantam, 
E no cimo da pira Heitor colocam, 
E ateiam fogo. A dedirrósea Aurora
Veio raiando, e a gente refervia. 
Depois que em roxo vinho apagam todos
Em roda a chama, seus irmãos e amigos,
De arroios d’água as faces alagadas, 
Em urna de ouro os brancos ossos colhem, 
De finos mantos carmesins coberta,
Na cova a metem, que por cima forram
De grossas lajes. Do sepulcro ereto
Em roda há sentinelas, que previnam
Dos de greva louçã qualquer ataque.
Já tumulado, aos paços reverteram, 
Onde Príamo rei, de Jove aluno, 
Lhes deu funéreo esplêndido convívio.
Heitor doma-corcéis tais honras teve.

 

Acredito não falar sem razão quando digo que apreciar a beleza de versos como esses é para poucos. E poucos foram os que durante minha vida encontrei, se não com a mesma paixão, com o mesmo entusiasmo. Carlos García Gual, um filólogo espanhol, reclama muito, numa entrevista, da falta de leitura de seus estudantes. Reproduzo aqui a pergunta específica. 

P.- Usted ha dado clase toda su vida en Filología. ¿También los alumnos leen menos?

R.- Leen muy poco. Gastan su tiempo atendiendo diversas pantallas y creen además que toda la sabiduría del mundo está en Google. Yo daba por supuesto que los alumnos de segundo o tercer curso de Clásicas, que es cuando llegan a mi asignatura, habían leído una serie de libros básicos, y no es así. A mí se me han quejado alumnos que decían que no tenía derecho a mandarles leer la Ilíada porque era muy gorda.

A maioria dos estudantes reclama do tamanho de um livro, do trabalho que vai ter ao ler uns poucos poemas, de não tentar compreender a ideia de um crítico, de ler, enfim. O que não parece ser óbvio para eles é que ler também é trabalhoso. Eles fogem das ciências exatas como se na literatura não se trabalhasse. Sim, a universidade é obsoleta, existem poucos professores que se preocupam com a pesquisa que fazem, mas subentende-se que se caminhe com as próprias pernas. As pessoas não se importam com a literatura da mesma forma que não se importam com a matemática. Lembrei-me, alguns dias atrás, do livro Em Defesa de um Matemático, de G. H. Hardy, no qual ele comenta que Ésquilo será esquecido enquanto Arquimedes será lembrado. Se ele nos visse hoje, talvez dissesse que o mesmo túmulo que abriga Ésquilo abriga Arquimedes. 

Existem pessoas como que incumbidas de serem depositárias da paixão que as epopeias produzem em certos espíritos, de serem mantenedoras de um prazer que não deveria ser esquecido. Não que elas se imponham esse serviço, o qual, na verdade, não é nada mais do que gostar de ler boas coisas, mas, diante de uma preguiça que consome muitos daqueles com quem convivem, elas acabam acreditando que sim. Tal como os heróis, lhes é conferido um destino. E manter (gostar) o valor da beleza desses poemas, como se fosse uma tarefa, não é tarefa fácil. É uma batalha. Assim como a dos heróis.