O Verdadeiro Opressor

Recentemente o Programa de Pós-Graduação em Matemática da Universidade Federal do Paraná (UFPR) prestou homenagem a três professores aposentados do Departamento de Matemática da mesma instituição. Entre os pontos mais destacados nos discursos dos envolvidos estavam as conquistas do Departamento (corpo docente formado predominantemente por doutores em matemática, quase todos sistematicamente publicando em bons periódicos científicos) e do Setor de Ciências Exatas (um prédio novo). Apenas um professor (que, por sinal, não faz parte do corpo docente do Programa de Pós-Graduação) discursou enfaticamente sobre contribuições específicas e importantes de um dos homenageados para a matemática. A noção dominante de conquista (professores com títulos de doutorado que estão publicando com frequência) é um dos resultados naturais da desestimulante normatização da vida acadêmica no Brasil e no resto do mundo. E a noção de que um prédio novo é outra forma de conquista apenas mascara a realidade de um jogo de recompensas dadas por um governo federal que investe em número de vagas para alunos universitários, mas não em qualidade de ensino e pesquisa.

Cheguei a trabalhar na época em que havia de fato iniciação científica voluntária na UFPR. Mas, em um dado momento, o voluntariado passou a ser normatizado por esta e outras universidades do país. Tudo é controlado por normas! Até mesmo metodologia científica no Brasil praticamente se reduz ao estudo de padrões de diagramação de texto impostos pela ABNT que, por sinal, são péssimos. Este excesso de normas na vida acadêmica cria condições favoráveis a uma enfadonha acomodação. Se não entendeu ainda, estou falando de acomodação a normas. Explico.

Hoje em dia a pesquisa científica depende fortemente de instrumentos de medida de qualidade de produção que estão comprometendo seriamente a qualidade da atividade científica em si. Este não é um alerta novo. Freeman Dyson, um dos mais importantes físicos do século 20, já disse em diversas ocasiões que programas de doutorado (Ph.D.) destroem vidas. Isso porque mentes intelectualmente incorruptíveis encontram sérias dificuldades para se ajustarem a normas. E aqueles que se adequam a tais normas, comprometem a própria criatividade. Peter Higgs, outro conhecido exemplo, além de ganhador do Prêmio Nobel em 2013, admitiu que dificilmente conseguiria ser contratado em uma boa universidade, por conta dos atuais parâmetros do sistema acadêmico. Em suas palavras, ele não seria considerado produtivo o bastante. O trabalho que lhe rendeu o Nobel em Física foi publicado em 1964. Desde então, Higgs publicou ao todo menos de dez artigos em periódicos especializados. 

Mas não nos concentremos apenas em casos pontuais. Recentemente foi publicada uma extensa pesquisa muito bem documentada sobre este pervertido jogo envolvendo as delicadas variáveis "incentivos acadêmicos", "medidas de produtividade" e "ética profissional".

O estudo em questão foca a vida acadêmica dos Estados Unidos, o país responsável pela mais volumosa e impactante produção científica no mundo de hoje. De acordo com os autores, os últimos cinquenta anos têm sido marcados por mudanças dramáticas na visão sobre o que é um cientista produtivo:

1) Pesquisadores recebem incentivos profissionais se aumentam o número de publicações. E o resultado disso é uma avalanche de artigos que pouco ou nada acrescentam à ciência. 

2) Pesquisadores recebem incentivos se aumentam o número de citações aos seus trabalhos. E o resultado é uma inflação de citações conquistadas por pesquisadores que solicitam menções aos seus trabalhos em artigos que eles mesmos avaliam para periódicos especializados. 

3) Pesquisadores recebem incentivos se conquistam volumes maiores de bolsas de estudo e pesquisa. O resultado é um aumento no tempo dispendido para escrever propostas e projetos e uma redução no tempo efetivamente usado para pesquisa. 

4) Pesquisadores recebem incentivos se orientarem mais alunos de pós-graduação. O resultado é uma queda na qualidade da pós-graduação e uma sobrecarga de doutores no mercado de trabalho que não seguirão carreiras científicas. 

Enfim, a lista de incentivos versus resultados negativos é grande e impactante. O resultado final disso tudo pode ser resumido a uma só palavra: corrupção. 

A vida acadêmica nos Estados Unidos está corrompida. Muita gente finalmente percebe isso. Mas absolutamente ninguém está tomando qualquer atitude concreta. Pensar em termos de exceções não é uma ideia salutar. Isso porque as exceções tendem a sucumbir diante deste cenário, como já está acontecendo há décadas. 

No caso do Brasil, cuja atividade científica ao longo de sua história sempre dependeu das exceções e cuja cultura popular sempre dependeu de normas, a situação é muito pior. Isso porque critérios claramente meritocráticos são simplesmente invisíveis para burocratas, para políticos, para a população e até mesmo para professores universitários. Méritos científicos reais não são negociáveis em universidades públicas e não interessam a universidades privadas. Praticamente ninguém neste país tem a mais remota ideia do que é uma atividade científica honestamente dedicada a projetos relevantes. Um exemplo que ilustra o que digo é o discurso socialmente aceito pela maioria da comunidade acadêmica de nosso país que prega um tolo emaranhamento entre desenvolvimento científico e bolsas de estudo.

Outro exemplo é a explosão de periódicos predatórios e o fato de que muitos profissionais da vida acadêmica se deixam seduzir pela garantia de publicação de seus trabalhos, independentemente de qualidade. 

E, para coroar isso tudo, existe hoje em dia um site especializado em compartilhamento de artigos científicos que anuncia contar com quase cinquenta milhões de membros beneficiados por um aumento de 69% no número de citações aos seus trabalhos nos últimos cinco anos. É uma verdadeira orgia de citações. Todo mundo é igualmente importante. Impacto também virou norma.

É possível que o principal mal da comunidade acadêmica seja a crença alimentada e propagada por ela mesma de que representa uma elite intelectual. Existe algum segmento social capaz de avaliar se a comunidade acadêmica está certa em suas acomodadas e normatizadas crenças? Esta suposta elite nada mais tem feito do que permitir que normas direcionem suas próprias atividades e, pior, seus próprios pensamentos. Ora, isso é algo que praticamente todo mundo faz! Então qual é a diferença entre intelectuais e os demais? Intelectual é aquele que se submete às normas de incentivo e produtividade na produção de artigos científicos e um vendedor de sapatos é aquele que se submete às normas de incentivo e produtividade na venda de sapatos? É esta a diferença? A única diferença está no produto vendido? Deus! Já conheci vendedores de sapatos menos acomodados e submissos do que essa autoproclamada elite!

Um intelectual não deveria ser um revolucionário? Um intelectual não deveria ser capaz de mostrar ao vendedor de sapatos caminhos alternativos, caso este vendedor se sinta infeliz com a sua ocupação? Um intelectual não deveria ser capaz de apontar para o vendedor de sapatos caminhos alternativos, caso este goste de sua ocupação e queira avançar de maneira significativa em sua carreira? Um intelectual não deveria ser aquele que rompe com as normas simplesmente porque nenhuma norma é boa o bastante para contemplar a diversidade humana? 

Mas, é claro, estas palavras também são invisíveis perante uma "elite intelectual", como a brasileira, que tem pregado igualdade como norma inquestionável. Já a selvagem competitividade existente na vida acadêmica norte-americana produz uma forma de estresse que tem obrigado muita gente talentosa a desistir da carreira científica, como bem apontou Dyson, ao citar casos extremos envolvendo internação hospitalar e suicídio. Por outro lado, a segurança de emprego para professores universitários concursados de instituições públicas em nosso país resulta em uma inércia intelectual que jamais é questionada. Afinal, estabilidade de emprego é norma! E esta realidade de normas a serem seguidas cegamente é responsável por outra forma de desestímulo para aqueles que querem trabalhar honestamente com ciência. Por exemplo, como garantir uma tese de doutorado relevante se prazos normatizados devem ser cumpridos, custe o que custar? Como garantir uma tese relevante se somente amigos normatizados são convidados para compor bancas?

Recentemente um leitor de antigo blog meu divulgou de forma muito discreta um texto publicado neste link. A autora defende uma proposta interessante para lidar com a falência das universidades nos Estados Unidos: um software open-source que permita a cada pesquisador customizar sua própria medida daquilo que ele julgue ser boa ciência, com base em dados disponíveis. 

Apesar do respeito à diversidade humana nesta proposta, ela depende de um postulado fundamental que não é necessariamente verdadeiro: que pessoas são honestas. Dificilmente uma proposta de flexibilidade sobre normas funcionaria para melhorar a qualidade da produção científica, a partir do momento em que: (i) referees incluem citações a seus próprios trabalhos em relatórios de avaliação de textos submetidos para publicação; (ii) nomes são meramente incluídos em artigos científicos para adulterar dados de produtividade; e (iii) bolsas são negociadas em instituições para fins de crescimento profissional e institucional. O problema parece ser mais fundamental. 

Por um lado o mundo demonstra não estar preparado para a massificação da atividade científica. Por mais que o mundo tenha mudado nos últimos cem anos, ciência ainda é uma atividade para poucos, muito poucos. E, por outro, a massificação do ensino superior transformou as universidades em ambientes que apenas refletem a desorientação da sociedade fora delas. Universidades estão se descaracterizando como agentes transformadores da sociedade, justamente por estarem permitindo toda esta enxurrada de alunos e professores que pensam de maneira trivial: permitindo que normas direcionem suas ações e formas de pensar. 

O ensino universitário em massa se tornou uma realidade em muitos países. Aqueles povos que não contam com os privilégios do ensino superior acessível para as massas, são culturas que lutam contra o subdesenvolvimento. Nos demais países as universidades apenas lutam para acompanhar aquilo que as massas esperam delas: oportunidades de treinamento técnico para conquistar bons empregos ou para criar empresas que ofereçam pequenos diferenciais diante do mercado. Mas a verdade é que nem mesmo a realidade de mercado é acompanhada pela maioria das universidades. Há um número crescente de pessoas que confia cada vez menos em instituições de ensino, sejam quais forem

Em uma pesquisa recente foi levantada a opinião de jovens brasileiros a respeito da escola. A maioria deseja simplesmente preparação para vestibular e ENEM. Em segundo lugar, eles desejam conhecer o mercado de trabalho. Este é o perfil de pessoas que aceitam passivamente normas sociais! E não estou falando apenas de normas oficialmente publicadas por agências governamentais ou demais instituições. Estou falando também daquelas normas naturalmente aceitas pela unidade familiar. Conheci o caso de um jovem que se sentia envergonhado por jamais ter cursado ensino superior. Ele se sentia mal consigo mesmo, quando estava cercado por pessoas com diplomas de graduação e pós-graduação. Trata-se de um excelente marceneiro que sente vergonha de seu ofício. Isso porque famílias fomentam em seus filhos a crença na norma inquestionável de que um diploma de graduação é condição mínima para ser gente. 

A grande conquista da cultura da normatização é ela mesma. E o efeito tóxico desta cultura é a produção de indivíduos infelizes. Autores de ficção científica como Ray Bradbury e George Orwell demonstraram temer o controle do indivíduo a partir da ação de forças superiores autoritárias, representadas por agentes externos. No entanto, o grande ditador perverso dos dias de hoje é o seu vizinho, o seu pai, a sua mãe, os seus irmãos, os seus amigos, o seu professor, o intelectual mais próximo. O grande tirano perverso, opressor, que esmaga a revolução e contamina a liberdade, é você mesmo. E como combater este tirano?


Este texto é de autoria de Adonai Sant'Anna, um dos administradores de Eclipse.