Diálogo - A Grande Piada

Introdução

 

Entenda como for capaz...

"Uma conversa é um diálogo, não um monólogo. É por isso que há tão poucas conversas de bom nível: devido à escassez, dois interlocutores inteligentes raramente se encontram."

Esta conhecida afirmação de Truman Capote introduz de forma adequada o tema deste ensaio, a partir do momento em que a sugerida existência de pessoas inteligentes soa como uma visão que demanda certa dose de crítica e autocrítica, principalmente no contexto de diálogos.

Capote defendia de forma um tanto prepotente ter inventado uma nova forma de literatura, a saber, o romance não-ficcional. Isso por conta de seu livro In Cold Blood, o qual foi um grande sucesso de público e crítica, adaptado na forma de pelo menos três produções cinematográficas (em 1967, 2005 e 2006), uma minissérie para a televisão e uma revista em quadrinhos. Ou seja, o brutal assassinato de quatro membros da família Clutter, nos Estados Unidos, ocorrido em 1959, foi descrito para a polícia por dois criminosos cujos depoimentos eram divergentes, romanceado por Capote na obra In Cold Blood, interpretado de cinco formas distintas pelo cinema, pela televisão e pela literatura popular dos quadrinhos, e assimilada sob a ótica de milhões de tonalidades de interpretações conferidas por pessoas que leram o livro e a revista ou assistiram aos filmes. O único relato que parece não ser contestável, em meio a esta torrente de percepções, é a morte de um casal e dois de seus filhos. Mas a responsabilidade desta violência, bem como as suas circunstâncias, são e sempre serão um mistério. Por quê? Porque o conhecimento sobre o que aconteceu com a família Clutter na manhã de 15 de novembro de 1959 depende de registros superficiais e de depoimentos confusos de dois homens presos pela polícia. A principal fonte de acesso ao público sobre a chacina em questão é uma versão romanceada do evento, na qual o autor garante que cada palavra escrita é verdadeira. Como todo romancista é compelido por visões caricatas de seus próprios modos de percepção (e Capote não era exceção) e como todo leitor é dramaticamente limitado por suas visões tendenciosas de mundo, temos aqui algo como aquela brincadeira infantil do "telefone-sem-fio". É a famosa máxima em ação: a diferença entre adulto e criança reside no tamanho do brinquedo.

Capote ouviu testemunhos, fez pesquisas, interpretou o material coletado, escreveu de acordo com princípios estéticos próprios e publicou. Desta forma estabeleceu um diálogo praticamente unidirecional com milhões de leitores do mundo todo. E traduções de seu livro para trinta idiomas garantem mais ruído na comunicação.

Existem aqueles que garantem que Truman Capote deliberadamente mentiu. Diante do estrondoso sucesso do livro, praticamente ninguém tinha coragem de contestá-lo. Um dos poucos a se manifestar foi o jornalista Jack Olsen, a quem Capote respondeu que o crítico estava apenas com inveja. Resposta de pouca inteligência vinda de alguém que reclamava da escassez de interlocutores inteligentes.

O fato é que nenhum interlocutor é suficientemente inteligente para garantir um diálogo com quem quer que seja, se o objetivo for a mútua compreensão. Este é o tema do presente texto que segue abaixo.


Matemática da Linguagem

 

Muitos lógicos e filósofos percebem diálogos como um jogo. Há um crescente número de estudos que estabelecem a estreita relação entre diálogos e teoria dos jogos. Neste contexto, uma das visões dominantes é a de que, em um diálogo entre duas pessoas, uma afirmação é válida se o jogador que a defende contar com uma estratégia para vencer. Neste sentido, o diálogo é percebido como uma disputa sobre uma afirmação, de maneira análoga a uma bola disputada entre jogadores de futebol. Grosso modo, trata-se de uma batalha na qual são usados mecanismos de argumentação para vencer o diálogo. 

No entanto, não podemos esquecer que diálogos sempre ocorrem em linguagens naturais, as quais fornecem evidências de que esta visão lúdica é um tanto limitada. Linguagens formais, como aquelas empregadas na matemática, na lógica formal e na computação, jamais são usadas isoladamente em discussões humanas, sem o imprescindível auxílio de linguagens naturais. Isso porque interlocutores, motivados por emoções e limitados pela cognição, querem persuadir ou serem persuadidos. E a arte da persuasão demanda que pessoas conversem de forma natural, de acordo com certos princípios ausentes nas linguagens formais, pelo menos em princípio. Isso significa que persuasão depende de muito mais do que elementos de caráter meramente lógico. Existem elementos relevantes em diálogos que transcendem qualquer forma de estratégia. Explicamos ao longo de todo o texto.

Toda linguagem L, seja formal ou natural, pode ser associada a uma estrutura algébrica. Trata-se daquilo que matemáticos chamam de semi-grupo livre. Um semi-grupo livre é definido por um vocabulário (o conjunto P de todas as palavras e nomes usados em L), por um conjunto S de sequências finitas de elementos do vocabulário P e por uma operação binária + que se aplica entre os elementos de S. Esta operação + tem o simples efeito de concatenar (ou justapor) os elementos de S, resultando em elementos de S. Por exemplo, se as palavras "abacate" e "verde" fazem parte da linguagem Português, então "abacate+verde" também faz. O resultado de "abacate+verde" é "abacateverde". Neste texto consideramos que uma frase é qualquer elemento de S.

Esta operação binária + é associativa. Tal propriedade algébrica garante a dispensa do uso de parênteses, quando queremos justapor três ou mais elementos do conjunto S. Desta forma "(abacate+verde)+gostoso" é igual a "abacate+(verde+gostoso)", o qual é igual a "abacate+verde+gostoso" que, por sua vez, é igual a "abacateverdegostoso". Além disso, todo semi-grupo livre conta com um elemento neutro relativamente à operação +. Este elemento neutro é a palavra vazia. Do ponto de vista matemático, se o semi-grupo livre for definido em alguma teoria de conjuntos usual, a palavra vazia é o conjunto vazio, aquele que não tem elemento algum. Do ponto de vista intuitivo, a palavra vazia é simplesmente silêncio. "Dizer" a palavra vazia é o mesmo que não dizer coisa alguma. Se denotarmos a palavra vazia pelo símbolo {}, temos então o seguinte resultado em particular: "abacate+verde+{}" é igual a "abacateverde".

Se o leitor estranhou frases como "abacateverde" ou "abacateverdegostoso", vale observar que a separação entre palavras é algo que nem sempre existiu na história da linguagem escrita. Pelo menos até o século 7 d.C., o estilo dominante no continente europeu era aquilo que hoje se conhece como scriptura continua ou scripta continua.

Palavras jamais eram separadas por espaços, pontuações, letras maiúsculas ou quaisquer outros sinais gráficos. Em parte isso ocorria por conta do trabalho de escribas. Frequentemente escribas eram orientados por seus mestres a escrever o que ouvissem. E o modo de percepção do discurso falado não permitia a identificação de separação entre palavras. Não é difícil exemplificar esta situação, mesmo na língua portuguesa. Considere a frase "dementeboa". Ela deve ser escrita, em notação corrente, como "de mente boa" ou como "demente boa"? A resposta depende do contexto social em que ocorre o diálogo, se for o caso. Se não houver contexto conhecido, não há como responder a tal questão a ponto de minimizar eventuais dúvidas.

Em comparação com os dias de hoje, os hábitos de leitura até o século 7 eram diferentes na Europa, em função da prática da scriptura continua. Esta antiga notação empregada na linguagem escrita obrigava os leitores a lerem em voz alta, de acordo com a interpretação que atribuíam para aquilo que liam. Não é fácil ler textos longos em scriptura continua. O hábito da leitura silenciosa (e introspectiva) somente surgiu quando a scriptura continua foi, pouco a pouco, abandonada. Estima-se que o fim desta transição ocorreu somente no século 14. 

Portanto, esta evolução histórica da linguagem escrita denuncia um caráter social que transcende uma descrição matemática tão simplista quanto aquela dada por um semi-grupo livre. Apesar de ser tentadora a visão simplificada e elegante de que toda linguagem é um semi-grupo livre, precisamos lembrar de outros aspectos inerentes aos discursos em nosso cotidiano.


Dimensões da Linguagem

 

Linguagens naturais são comumente definidas, na literatura especializada, por três dimensões (ou ramos) intrinsecamente relacionadas e emaranhadas entre si: sintática, semântica e pragmática. Alguns autores incluem fonologia e morfologia, nesta classificação. Mas preferimos ignorar estes ramos, sem risco de prejuízo para o restante da leitura.

Sintática se refere ao estudo de princípios que estabelecem como os elementos do vocabulário são justapostos para formarem frases. Não é qualquer sequência finita de elementos do vocabulário que pode ser reconhecida como uma frase em uma dada linguagem. Esta ordenação pode ser estabelecida por meio de regras que constituem uma gramática. Por exemplo, para os estudiosos das gramáticas gerativas de Chomsky, tais regras correspondem àquilo que linguistas chamam de produções. E linguistas sabem muito bem que toda linguagem pode ser gerada por uma infinidade de gramáticas. Uma única gramática de Chomsky gera uma única linguagem. No entanto, uma dada linguagem jamais permite identificar uma única gramática que a gere. E isso vale para qualquer linguagem, natural ou não, trivial ou não.

Já a dimensão semântica das linguagens naturais se refere aos significados atribuídos a frases. Uma semântica de uma dada linguagem L pode ser compreendida, em primeira instância, como uma correspondência entre frases de L e elementos de um domínio que não tem interseção alguma com qualquer componente de L. Por exemplo, cama alguma pertence ao vocabulário da linguagem Português. No entanto, a palavra "cama" da língua portuguesa corresponde semanticamente à categoria de todas as camas que já existiram, existem, existirão e que poderiam existir. Na verdade, a palavra "cama" pode ser semanticamente associada até mesmo a uma cama que sequer poderia existir, como a cama de plástico na qual Alexandre o Grande deitava todas as noites (o plástico somente foi inventado no século 19 e Alexandre o Grande nasceu mais de dois mil anos antes disso), ou a cama de antimatéria na qual o leitor deste texto deitou ontem à noite. 

Todas essas possibilidades de interpretação para uma palavra tão ordinária quanto "cama" ilustram apenas parcialmente as magníficas ambiguidades semânticas das linguagens naturais, algo que certamente interfere com os propósitos de um diálogo, sejam quais forem. Se um diálogo é percebido como um jogo e se toda linguagem natural conta com a sua contraparte semântica, resta saber se duas pessoas dialogando estão realmente jogando o mesmo jogo. 

Além das dimensões sintática e semântica, há a inevitável contraparte pragmática. A dimensão pragmática se refere ao efetivo uso de linguagens, como diálogos. E este emprego de linguagens deve sempre levar em conta o contexto social no qual são promovidas elocuções. Um exemplo clássico é a frase "Você é um gênio mesmo." O significado pode ser um elogio ou exatamente o oposto, uma ofensa. Depende do contexto social vivenciado pelos interlocutores, durante o diálogo. 


Quarta Dimensão

 

Mas neste ensaio propomos uma quarta dimensão para as linguagens naturais, a qual chamamos de dimensão humorística. Escolhemos este nome em função do fato de que humor é um fenômeno dependente de estado de espírito. Na prática, humor chega até mesmo a ser confundido com a própria noção de estado de espírito: "Hoje estou de bom humor." O que é engraçado hoje, não é necessariamente engraçado amanhã. O que é engraçado para um, não é necessariamente engraçado para outro.

Apesar do humor ter hipoteticamente surgido entre nossos ancestrais simiescos na forma de atos físicos agressivos, hoje ele é fortemente sustentado nas ambiguidades de significados de frases das linguagens naturais. No filme Small Time Crooks, de Woody Allen, o personagem principal julga que ser chamado de gênio é um elogio, apesar de seus amigos estarem apenas caçoando dele. Aquele que fala tem uma intenção de significado em sua elocução e aquele ouve interpreta a mesma frase de maneira totalmente diferente. Daí o humor! O público assiste ao filme e ri. Isso porque um mesmo contexto social pode ser percebido de forma diferente por aqueles que o vivenciam. Pessoas que respondem a perguntas retóricas constituem outro bom exemplo, frequentemente frustrante para quem enunciou a questão.

Portanto, o significado de frases depende de algo mais do que um mero contexto social. O significado de frases, sejam ouvidas ou faladas, escritas ou lidas, depende do estado interno dos envolvidos e até mesmo de suas respectivas capacidades intelectuais e emocionais intrínsecas para lidar com incertezas. Por isso a reação tão típica "Você entendeu o que eu quis dizer!" Apesar de ser uma resposta irracional (uma vez que não há evidências fortes o bastante para crer em telepatia), pessoas a usam com grande frequência, denunciando o caráter humorístico das linguagens naturais. 

A principal tese aqui defendida se divide em seis partes, assumindo que a capacidade de reconhecimento de significados de frases depende do estado interno dos interlocutores envolvidos em um diálogo:

1) Linguagens naturais existem com o propósito de estabelecer diálogos entre interlocutores, apesar de poderem ser usadas para outras finalidades de caráter introspectivo.

2) Diálogos ocorrem na forma de passos. Cada passo é definido por uma frase transmitida por um interlocutor até o momento em que o outro interlocutor reage, transmitindo uma frase. E tais passos têm efeito cumulativo, gerando frases cada vez maiores à medida que o diálogo evolui, passo a passo.

3) Todo interlocutor busca por uma convergência de significado sobre o que transmite em um diálogo. No entanto, esta busca de convergência pode ser mudada para outro significado, durante o diálogo. Esta mudança ocorre em decorrência de relações entre estímulo e estado interno.

4) Cada frase recebida ou transmitida por uma pessoa está associada a um vasto domínio de possíveis significados reconhecíveis pelo interlocutor, dependendo de seu estado interno.

5) Apesar de cada frase recebida ou transmitida por uma pessoa estar associada a um vasto domínio de possíveis significados, apenas um é conscientemente priorizado em cada passo do diálogo. Esta escolha é definida pelo estado interno de cada interlocutor.

6) Quanto maior a frase (o comprimento da uma frase é o número de ocorrências de elementos do vocabulário nela), mais estreito se torna o domínio de possíveis significados para a frase em questão. Este princípio retrata parte do mecanismo inconscientemente empregado por interlocutores para a busca de convergência de significado.

Exemplifico. Item 1) Pense no significado da frase "mãe"! Interrompa a leitura neste instante! Qual é o primeiro significado que ocorre em sua mente para a frase "mãe"? Anote este significado! Item 2) Agora, pense na frase "mãe de Hitler". Interrompa novamente a leitura e anote o significado que lhe ocorre. Item 3) Agora pense na frase "mãe de Hitler é". Anote! O que você acha que mãe de Hitler é? Item 4) Agora pense na frase "mãe de Hitler é o nome de minha cachorra de estimação". Item 5) Você deve ter observado que houve uma evolução sobre os significados atribuídos em consequência de sua leitura. Quando você leu a frase "mãe", pensou em um significado específico. Provavelmente pensou em sua própria mãe. No entanto, seu estado interno abre espaço para outras possíveis interpretações, de acordo com suas capacidades cognitivas e emocionais. Essas outras interpretações não são percebidas conscientemente. Isso porque sua consciência escolheu apenas um significado, ofuscando os potenciais significados que não foram escolhidos. Mas uma miríade de outras possíveis interpretações é admitida pelo seu estado interno, mesmo que você não as perceba de imediato. Item 6) Por conta disso, à medida que a frase se torna mais longa, certas possíveis interpretações são abandonadas. Diminui drasticamente a possibilidade de admitir que a frase "mãe de Hitler é o nome de minha cachorra de estimação" tenha alguma coisa a ver com a sua mãe. O significado que se refere à sua mãe foi descartado! 

Vale observar também que a visão aqui apresentada não se compromete com qualquer conceito de verdade. Na dinâmica de diálogos, não são os conceitos de verdade e/ou falsidade que estão em jogo. Verdade e falsidade são apenas dois, entre bilhões de outros possíveis significados que pessoas atribuem para aquilo que expressam e recebem, linguisticamente falando. Verdade e falsidade são meros elementos de interpretação com os quais estamos acostumados (e escravizados) em decorrência da maneira como somos criados pela família e pela sociedade.


Estado Interno de Linguistas

 

Estados internos de interlocutores têm sido sistematicamente ignorados por linguistas do mundo todo. Cremos que isso ocorra por vários motivos. Em primeiro lugar, é extraordinariamente difícil ter acesso a tais estados internos. Como conhecer o estado interno de uma pessoa, no sentido de avaliar o que ela entendeu, o que pode entender e o que quis dizer, sem apelar para a própria linguagem? As ferramentas usadas pelas neurociências não são sofisticadas o bastante para distinguir sutilezas profundas nas formas humanas de comunicação, percepção e compreensão. Os métodos da psicologia quase sempre são motivos para intermináveis debates. E autoconhecimento é frequentemente confundido com autoengano.

Em segundo lugar, muitos linguistas partem do pressuposto de que gramáticas são mais fundamentais do que outros aspectos das linguagens humanas. Existe até mesmo a incessante busca pelo gene da gramática

Este tipo de visão inevitavelmente produz uma tendência de pensamento dominante, definindo estados internos sobre os próprios linguistas. Portanto, a busca pelo gene da gramática universal pode estar ofuscando linguistas, impedindo-os de perceber conscientemente uma outra possibilidade: a de que existe uma rede de fatores genéticos a definirem aspectos semânticos das linguagens humanas, estes sim mais fundamentais do que qualquer gramática.

Crianças aprendem a falar a partir de elementos semânticos pontuais: mamãe, papai, fome, dodói, cachorro, parque. Frases formadas pela justaposição de outras frases ocorrem apenas mais tarde. Se a criança diz "mamãe papai", em algum momento mamãe e papai corrigirão, respondendo: "mamãe e papai". E assim a criança começa a construir novos significados (como a conjunção "e") simultaneamente com regras sintáticas. Se a criança disser "mamãe papai e", ela será novamente corrigida. A criança aprenderá que apenas a frase "mamãe e papai" está correta. A sintática é desenvolvida a partir da semântica e não de uma gramática geneticamente programada, como defende a maioria dos linguistas. A conjunção "e" é um operador lógico. É esta visão operacional sobre conectivos lógicos que garante a formação de novas frases. A operação "e" aplicada sobre as frases "mamãe" "papai" produz a nova frase "mamãe e papai". E, do ponto de vista matemático, nada impede que este operador lógico seja usado de maneira diferente, como na frase "mamãe papai e". Se o leitor não se convencer com este argumento, lembre-se das calculadoras Hewlett-Packard. Estas máquinas empregam a notação polonesa reversa para operações elementares entre números. É uma notação que emprega a sintática "1 2 +" no lugar da sintática usual "1 + 2". E usuários do mundo todo se adaptam bem com este tipo de construção de frases. Ou seja, se uma criança afirmar "mamãe papai e", ela não está errada. Está apenas empregando uma sintática não usual. Corrigi-la significa restringir sua capacidade para lidar com incertezas. E é assim que pessoas começam a fechar as suas mentes para novas possibilidades de perceber o mundo. 

Existe ainda pelo menos mais um motivo para linguistas ignorarem estados internos de interlocutores, em seus estudos. Este motivo reside na estreita relação entre estados internos e humor. Filósofos, por exemplo, reconhecem o quão ignorantes são a respeito de humor.

A literatura filosófica sobre humor é incipiente, se compararmos com outros temas, como filosofia da física, da matemática ou da música. Além disso, humor conta com má reputação entre filósofos, linguistas e demais estudiosos. A teoria da superioridade, por exemplo, estabelece a tese de que uma risada expressa um sentimento de superioridade em relação a outras pessoas ou em relação a um estado interno anterior daquele que ri. Por conta deste e de outros fatores, estados internos têm sido percebidos por pesquisadores com certa aversão. Profissionais do mundo acadêmico não podem rir, sob a possível pena de não serem levados a sério. No entanto, está mais do que na hora de levarmos o humor a sério. Rindo também se aprende. É uma forma diferente de percepção. É uma forma diferente de interferência sobre estados internos.


Debates e Embates

 

Nossa visão sobre a íntima relação entre semântica e a dimensão humorística de linguagens naturais apresenta uma característica que deve ajudar a entender melhor certos aspectos das culturas humanas. Por que pessoas discordam tanto em suas discussões? E o que as faz concordarem umas com as outras? Se interlocutores buscam convergências de significados sobre aquilo que expressam, por que há tantas divergências de visões e opiniões? Por que existem tantos embates no lugar de debates? Por que existem tantas afirmações da forma "Não foi isso o que você disse!" ou "Não foi isso o que eu quis dizer."? A resposta é simples. A convergência mencionada no item 3 acima é sobre aquilo que se transmite e não sobre a concatenação entre transmissão e recepção. Não são frases que estão em jogo, em uma discussão ou conversa. O que está em jogo são modos individuais de percepção sobre uma frase. Portanto, cada interlocutor joga o seu próprio jogo, em um diálogo. E nem poderia ser diferente! Pessoas contam com ingredientes cognitivos e emocionais distintos entre si. Pessoas são definidas por aquilo que sabem e sentem. Portanto, são definidas também por aquilo que não sabem e por aquilo que não sentem. E a ferramenta mais usada para expressar o que se sabe e o que se sente é o limitado diálogo.

Alunos de escola não entendem a diferença matemática entre o conjunto vazio e o conjunto unitário vazio porque não têm disponíveis, em seus estados internos, os possíveis significados para estes conceitos. Logo, escolhem significados a partir do que sabem e sentem e nada mais. E são significados que divergem daqueles que são pretendidos pelo bom professor de matemática. 

Como mudar este quadro? Da mesma maneira como estes mesmos alunos aprenderam a diferença entre mamãe e papai. Dialogando!

Georg Cantor, o criador da teoria de conjuntos, propôs uma analogia bem humorada. O conjunto vazio é como uma sacola vazia. E o conjunto unitário vazio é como uma sacola que tem dentro uma sacola vazia. Analogias ajudam a desenvolver categorias mentais que pouco a pouco se desenvolvem como abstrações. A cama onde você dorme todas as noites é um objeto concreto. Mas o conceito de cama é abstrato. É uma categoria mental. Mesmo que você seja colocado diante de uma cama jamais vista antes, ainda reconhecerá este objeto concreto como uma cama. Isso porque o conceito de cama foi inserido em sua mente ao longo de anos de diálogos, desde o seu nascimento. O mesmo pode ser feito com conceitos matemáticos. 

O lado negro da solução via diálogo é que analogias também podem induzir ideias divergentes entre interlocutores, sem que eles necessariamente percebam. Julgar que ocorre convergência em um diálogo é um risco enorme. Isso porque jamais serão encontradas duas pessoas no mundo que compartilhem exatamente o mesmo estado interno. Ou seja, jamais será possível garantir o diálogo que inevitavelmente convergirá para o mesmo significado, tanto do ponto de vista de quem expressa quanto do ponto de vista de quem recebe. A analogia entre conjunto vazio e sacola vazia pode induzir a visão preconceituosa de que matemática lida com conceitos tão reais quanto sacolas. No entanto, o caráter meramente descritivo da matemática não permite que ela trate de objetos reais. Sherlock Holmes, por exemplo, é conhecido apenas descritivamente, por conta da literatura produzida por Arthur Conan Doyle. Mas jamais existiu uma pessoa real como aquela descrita na obra deste famoso médico e escritor britânico. Sherlock Holmes é apenas uma descrição. É um conceito meramente abstrato. E matemática lida com conceitos meramente abstratos, sem contato algum com o mundo real. O motivo para a matemática encontrar aplicações no mundo real é ainda um grande mistério entre matemáticos, físicos e filósofos. 

Por que casais brigam? Por que esquerdistas e direitistas não se entendem? Por que existem homófobos? Por que há tantos racistas e misóginos? Todas essas divergências sociais e pessoais ocorrem, em parte, por carência de contato com o mundo. Diversificar experiências pessoais, sociais, artísticas e profissionais ajuda a desenvolver novas categorias mentais. Fica mais fácil compreender homossexuais se você conviver com eles. Fica mais fácil compreender homófobos se você conviver com eles. Fica mais fácil compreender matemática se você conviver com ela. Fica mais fácil entender uma peça musical se você conviver com todas as dimensões possíveis da música. Fica mais difícil você se tornar um fanático irredutível se você conhecer novas culturas, novas pessoas, novas experiências, novos livros, novos filmes. Fica mais fácil dialogar se você abrir a sua mente para diferentes formas de percepção. 

Sócrates já dizia ser incapaz de ensinar. O melhor que podia fazer, segundo ele, era estimular as pessoas a pensarem. O problema é que nem mesmo a habilidade de fazer alguém pensar pode ser garantida em um diálogo. Isso ocorre por conta das evidências e ideias aqui apresentadas. 

Não dá para dialogar de forma satisfatória com ignorantes. E não é possível dialogar construtivamente sendo ignorante. Não existe esperança alguma sobre o fim da ignorância. Sempre existirão conhecimentos altamente relevantes que jamais saberemos, seja por limitações pessoais ou até mesmo sociais. Afinal, a vida é curta e o universo é ainda um mistério. Portanto, jamais existirá o diálogo que seja igualmente convergente para todas as partes envolvidas. Mas, paciência. Até agora ninguém descobriu qualquer método de comunicação mais eficaz do que o diálogo.

Se em algum momento futuro for possível o completo compartilhamento de estados internos de percepção entre as pessoas, o diálogo certamente estará morto. Não haverá motivo algum para conversarmos. Ignorância é o grande pilar da sabedoria.
 


Adendo


Durante muitos anos os criadores deste site investiram na vida acadêmica, seguindo os passos normais que se espera de um pesquisador. No entanto, também percebemos que esta mesma vida acadêmica está seriamente defasada em relação ao mundo real e, pior, está corrompida por uma crescente produção de plágios, farsas e artigos e livros irrelevantes. Sem dúvida, há muita produção científica relevante de alta qualidade ainda realizada por universidades e institutos de pesquisa. No entanto, o peso imposto pela burocracia e lentidão em tomadas de decisão não compensa o esforço, pelo menos do ponto de vista dos responsáveis pela presente iniciativa. Este é nosso estado interno. Por conta desses fatores, estamos criando aqui um ambiente diferenciado, no qual ideias que julgamos importantes são lançadas de diferentes formas, em diferentes linguagens. 

Um texto como este primeiro que oferecemos no site Produções Eclipse jamais poderia ser submetido para publicação em um bom periódico científico, justamente por conta dos atuais paradigmas acadêmicos. Falta senso de humor neste mundo.

As linguagens que optamos usar, por enquanto, estão na forma de textos, fotos, imagens e vídeos. O vídeo no topo deste ensaio é uma experimentação que realizamos com o objetivo de discutir temas relacionados ao emprego de linguagens. Trata-se de uma fábula sobre um mundo de espelhos refletindo modos de percepção. Como pensar de maneira original em um mundo que reflete a nós mesmos? Como conhecer algo diferente se apenas refletimos o ambiente onde vivemos? É uma releitura da famosa fábula de Platão, na qual a caverna é trocada por espelhos. Não é um vídeo bonitinho, cheio de bichinhos fofinhos. É um vídeo denso que exige concentração e reflexão de quem o acompanha. E novos vídeos estão a caminho, sobre novos temas a serem tratados aqui. 

Estamos cansados de fazer o que os outros esperam de nós. E finalmente temos a oportunidade de fazer o que realmente sempre quisemos. Queremos rir. Queremos rir daqueles que gostam deste site, daqueles que não gostam, daqueles que nunca ouviram falar de nós e de nós mesmos. Só rindo para aguentar este mundinho estranho em que estamos presos e condicionados.

O que esperamos é que os poucos leitores que nos agraciarem com a sua presença e discussão encontrem aqui um pouco mais de liberdade. 

Um abraço