Tesla, o Humanal

Intangível é um dos cinco blogs deste site. Mas é o único que contará permanentemente com apenas uma postagem, a qual segue abaixo.


Apresentação

 

Albert Camus foi jornalista, editor, dramaturgo, romancista e ativista, entre outras funções. Foi um dos pensadores mais importantes do século 20. Em seu célebre ensaio O Mito de Sísifo, Camus apela a uma emblemática personagem da mitologia grega, para ilustrar o absurdo da vida humana. Neste contexto ele defende a seguinte tese: "Existe apenas uma questão filosófica realmente séria: suicídio."

Mesmo que alguém seja capaz de julgar precipitadamente que Camus tenha exagerado em sua afirmação, ignorando os aspectos filosóficos profundos sobre vida e morte (o ser e o não ser), é importante lembrar que na maioria dos países existem mais suicídios do que homicídios intencionais (incluindo fatalidades de guerra). Levando ainda em conta que, para cada pessoa que tirou a própria vida, existem pelo menos vinte tentativas de suicídio no mundo, este se mostra um problema de saúde pública que certamente precisa ser levado a sério.

No entanto, não estamos aqui para falar de saúde pública. Não estamos aqui para discutir sobre depressão e outros distúrbios cerebrais ou mentais. Estamos aqui para tratar de uma abordagem íntima sobre o ser e o não ser, sobre o viver sob a cúpula da vida e o romper com as limitações da existência. Estamos aqui para promover uma ideia ainda não conhecida pelo público.   

Dominus Éon Sárida é o autor bicéfalo do livro Vida e Morte de Tesla, o Humanal. Trata-se de uma obra de caráter extraordinariamente pessoal, que foi escrita ao longo de quase quatro décadas, conforme o desenvolvimento de certos eventos na vida do responsável pelo texto. No entanto, é também uma mensagem lírica sobre o intenso desejo de saber o que existe além da existência. 

Uma das principais metas do selo Eclipse é colaborar com Sárida. Por conta disso, fazemos uma solicitação para os nossos leitores. Apenas escreva um breve comentário, afirmando seu interesse em ler a obra completa de Sárida, para que seja possível convencer um editor específico a tornar público o livro Vida e Morte de Tesla, o Humanal. A veiculação desta obra deve ser feita por meio físico e não eletrônico. Trata-se de uma exigência do autor que gentilmente permitiu a reprodução do capítulo 1 de seu manuscrito. São ao todo doze capítulos já finalizados e cuidadosamente revisados. Aqueles que colaborarem com comentários a favor da publicação, terão seus nomes citados na versão impressa. Se incluírem dados para contato, serão sorteados para ganharem um exemplar gratuitamente, caso o livro seja publicado. E aqueles que divulgarem esta campanha em seus blogs pessoais ou profissionais (comunicando a divulgação por aqui), certamente receberão exemplares gratuitos.

Ajude a oferecer para o nosso país algo mais do que consumo imediato de senso comum. Ajude a divulgar uma literatura atípica e, portanto, necessária. Comente e compartilhe. 

Suicídio é condenado pelas principais religiões, é motivo de vergonha entre os familiares daqueles que desistiram de viver, é anátema em eventos sociais, é tabu. Mas e se alguém conseguir oferecer uma perspectiva diferenciada sobre o contraste entre o viver e o não viver? E se alguém for capaz de desenvolver uma literatura que traga uma forma diferente de luz sobre aquilo que a maioria percebe como trevas? E se a luz negra for possível na arte das letras? Bem, este é o caso do livro que aqui promovemos. Sárida coloca uma perspectiva multifacetada para a vida, a qual acaba implicando em uma visão de múltiplas formas que a morte pode assumir.

Traçando paralelos entre os mundos recebidos por influentes autores como Blackwood, Lovecraft e até mesmo Crowley, e promovendo um humor negro de forte apelo lógico e filosófico, Sárida desenvolveu um universo de fantasia que concatena letras com trevas, escrita compulsiva com análise crítica, descrição com ação promovida pelo próprio leitor. É um raro texto que, mesmo em forma impressa, permite uma interação entre autor e leitor. Por conta disso tudo que estamos aqui para promovê-lo.

Com a palavra, Dominus Éon Sárida...


Capítulo 1 - Gênesis

 

Tudo deve ter um início, um nascimento, um primeiro sopro. Mesmo o início tem o seu começo. O início é uma ação. É uma ação que desencadeia uma sequência de eventos inicialmente alinhados, para formar uma causal fila muito bem começada. Já o começo do início é uma intenção, um propósito, uma finalidade, um fim. São intenções que fazem brotar inícios. E assim, o início começa com o fim, como um uróboro. 

Alguém já sabia disso quando esboçou, neste mundo nosso de cada dia de voltas e voltas, o oroboro.

Tesla começou assim, com o seu próprio fim.

Tesla deveria nascer em um lugar muito específico. Não havia escolha. Esta era a sua intenção, o seu fim. E neste ponto radica a primeira contradição. Como crer no livre arbítrio, se não escolhemos onde e quando nascemos? Como crer na liberdade de escolha, se nada sabemos sobre os nossos mais íntimos processos biológicos? Escolhemos chocolate no lugar de baunilha ou é a bioquímica do corpo que impõe a sede por cacau? Preferimos homens a mulheres, em nossas relações mais íntimas, ou somos meros escravos de tendências evolutivas, influências sociais, mutações caóticas e hormônios ditatoriais? Como crer no livre arbítrio se jamais escolhemos se queríamos de fato o direito de escolher?

Tesla deveria nascer em um lugar muito específico. Não havia escolha. Esta era a sua intenção. Tal lugar era uma cúpula, uma gigantesca cúpula, uma cúpula de cor esverdeada. Era o útero de Tesla. Tesla sabia de onde veio. Veio de seu útero. Sua cópula antecipada foi a sua cúpula esverdeada.

Tesla permanecia em silêncio, homem, sentado sobre vasto e idoso trono de antigo tecido coberto por verdes e viscosas algas. Algas esquecidas, como os antigos deuses e monstros de Algernon Blackwood. Algas esquecidas sobre o papel que exerceram naquele úmido e obscuro lugar. Outras plantas insistiam em permear aquele ambiente vegetativo. Mas era a água a origem de toda a vida.

Foi onde tudo começou. Uma cúpula. Uma enorme cúpula que ocultava a existência de um mundo exterior, apesar de depender dele. Era uma cúpula de concepção humana, muito humanal.

Sherlock explica:

- É preciso isolamento do mundo para iniciar a jornada para a compreensão. Somente o isolamento quântico permitirá que saltemos para onde devemos nos revelar nesta existência terrena. É assim que nascemos: por saltos quânticos de espíritos para barrigas de mulheres. Todo ventre feminino é uma ligação entre o divino e o terreno.

O chão que sustentava Tesla e seu trono era formado por grandes e deslizantes ladrilhos, em disposição de um xadrez com casas escuras e claras, sempre verdes ou esverdeadas. As paredes eram de vidro bruto, como areia fundida por intenso e implacável calor. Era um vidro esverdeado como mata, porém fosco e espesso como a ignorância que nos isola do mundo. O verde vidro sugeria a criação de formas novas, não bem definidas, para cada momento que Tesla o mirasse. Não ficava claro se aquele fenômeno de troca era um dom de Tesla, capaz de transmutar o mundo fisicamente perceptível, ou se era uma qualidade inerente ao vidro. Talvez fosse o resultado de uma interação entre Tesla e sua cúpula, tornando ambos os corpos um só, em uma espécie de emaranhamento quântico. Tesla estava puramente acoplado ao seu pequeno mundo, um verde e gigantesco domo.

Admito a possibilidade de que tal emaranhamento tenha inspirado o começo da jornada de Tesla, o Humanal. Afinal, Tesla pressentia no verde da cúpula uma úmida mata virgem, muito fechada, de acesso difícil. Difícil mesmo era antever tudo o que iria acontecer, com seu mundo interior projetado para além daquelas paredes vitrificadas e foscas. Tais quais vitrais de igrejas, que sugerem portais para mundos celestiais, os limites vitrificados do domo Humanal induzem uma realidade para muito além delas.

Do trono do domo que exalava vida, Tesla meditou, sempre mantendo os olhos abertos. Seus olhos eram verdes e profundos, penetrantes e cobertos por rasas lágrimas. Profundos como aquilo que jaz no medo. Penetrantes como o mais profundo horror. Seus olhos eram penetrantes como uma densa floresta castigada por raios e tempestade. Ele precisava do bem e do mal. O bem era uma amada mas oculta filha. Uma filha de olhos azuis como o límpido céu de primavera. O mal era ele.

Tesla, o Humanal, se encontra sentado... em seu trono... em seu domo. Submete-se a transe profundo. Sua mente vaga entre mundos. Seu estado de consciência normal é o transe imundo. E ele então vive seu propósito, seu fim... 

Novamente Sherlock tenta intervir:

- Ao leitor cabe uma advertência. Se Tesla for o delírio da mente de alguém, o que pensar dos delírios do próprio Tesla? Prepare-se, pois a jornada do leitor certamente será mais tortuosa do que os devaneios do próprio Humanal. Afinal, se o Humanal tem uma filha, de onde ela surgiu? Se Tesla nasceu em um domo, onde está a filha que não o acompanha?

Da mente imaginativa do Humanal brotam prédios de arquitetura singela, a combinar suas transparentes paredes coloridas com o fino ar da manhã que as cercam, alternando ângulos agudos, como lâminas de navalhas, com superfícies suaves, como o dinâmico ondular de calmo lago. Os brilhantes e vespertinos raios solares compõem parte indefinida do robusto e delicado desenho de edifícios totalmente desprovidos de superfícies opacas, permitindo que a colorida imagem do extenso gramado verde atravesse e se reflita no contorno que não discrimina entre o dentro e o fora. Sem que se perceba qualquer falha presença humana, aquela suave miríade de brilhos e cores, contrastes e tonalidades, espessuras e texturas, com sugestões de movimentos a partir do estático desenho arquitetônico, ambientam uma caleidoscópica sonoridade de sofisticados equipamentos eletrônicos, raros pássaros, extintos mamíferos, leves e pesados veículos, quedas d'água, flores em crescimento, formigas em ação, rochas em avalanche, diálogos inefáveis. 

Tesla quase consegue ouvir sussurros entre as edificações, como se fossem murmúrios de uma doce menina felina e despida, dançando ao sabor do vento.

O navegar pelos transparentes corredores da irreconhecível e ainda familiar arquitetura, remete a um fluxo de tempo enquanto sentimento, sem outras percepções sensoriais além da onírica. Não há sons discerníveis neste momento da imaginação onírica do Humanal. 

As recordações dos caminhos já percorridos, ao longo de sonhada engenharia, não se estagnam. Não congelam na cronologia da dinâmica de mutações da paisagem e do ponto de vista. Pelo contrário, fazem parte da inacessível ontologia que origina presente e futuro. O passado é também dinâmico em percepção, pois em constantes mergulhos nas recordações do que se viu, percebem-se novos aspectos explicáveis apenas em termos do presente estágio e das expectativas do que há por vir. Dessa forma, futuro também influencia o passado naqueles brilhantes corredores, pois o tempo é apenas inerente a um ponto de vista. Apenas nós, os pontos de vista das coletivas consciências, lembramos com saudades e arrependimentos. Apenas nós, carregados de humanais sentimentos, aguardamos com ansiedade, excitação e medo. Apenas nós, seres humanos, conhecemos o tempo como sentimento. Humanais sentem o tempo que rasga a pele e quebra os ossos. Tempo é sentimento. Tempo é dor, dor do envelhecer. Dor é o caminho para a liberdade. E a liberdade é igualmente um estado de espírito. 

A engenharia do infindável complexo de prédios - cuja transparência não se perde com a distância, mesmo que esconda incontáveis paredes por detrás de outras - é desprovida de métrica. Para completar o quadro, percebe-se que se trata de engenharia mergulhada em espaço-tempo relacional e não absoluto. Em seu sonho, Tesla examina suas mãos e percebe, maravilhado, que uma é imagem espelhada da outra, sendo o seu corpo o espelho de referência simétrica. Ele translada e rotaciona seu braço esquerdo. Com tais movimentos rígidos, sobrepõe a mão esquerda sobre a direita, fazendo-as coincidirem na forma de uma única mão. Imagens espelhadas são contrapartes congruentes neste espaço-tempo relacional. E então o Humanal bate palmas, resolvendo oniricamente o problema budista de uma só mão batendo palmas.

Uma cristalina cúpula, de caráter puramente topológico, mas sem métrica induzida, tal qual exótica fita de Möbius, constantemente se vira do avesso, permutando interior com exterior, sem que qualquer parte de sua superfície seja quebrada ou rasgada. Torres que remetem a inusitadas garrafas de Klein - que bem poderiam ser alagadas por dentro, mantendo-se secas por fora, em caso de precipitação - são inundadas por conhecimentos e sentimentos traduzidos na forma de uma dinâmica de cores dançantes. Fótons individuais se perdem no labirinto de prédios sem individualidade, permanecendo presos em liberdade de reflexos, difrações, deflexões e distorções de cor, intensidade e polaridade. O tridimensional se percebe bidimensionalmente, o qual transmuta para um tetradimensional de curvas de tempo que hora se abrem e hora se fecham, eclodindo em um foco de dimensão fractal, tal qual atrator estranho. O corpo de Tesla vira do avesso, retornando à forma original e sem rasgar a sua pele, tornando-se extensão humanoide da famosa esfera concebida pelo cego Bernard Morin.

Livre arbítrio e destino coexistem, como a natureza corpuscular e ondulatória da luz, em caráter de complementaridade de opostos. A consistente contradição do ambiente remete aos modelos enumeráveis para o corpo dos números reais. E, quebrando o silêncio das cores e luzes, ouve-se uma sonora voz a ecoar o seu nome. Neste momento seu conhecimento se multiplica e a gargalhada de sua iluminação ecoa por vidros, metais e mentes. Era a voz da doce menina despida, que dança displicentemente enquanto gera a sua própria brisa.

Tal qual matemático de profunda intimidade, que concebe conceitos inexistentes no espaço e no tempo, sem relações causais com o mundo real, Tesla sonhou com um universo de singela engenharia de construtos.

E o Humanal finalmente desperta de seu sono, alertado por seu sonho, por seu fim. 

A cúpula continuava verde ao seu redor. Tesla verbalizou na solidão de sua cúpula: 

- Então esta é a morte! 

Aos poucos voltou a assimilar aquilo que se traduzia pelos sentidos físicos como realidade. Ficou então surpreso por ainda estar vivo e respirando sua própria brisa. Estranhamente não sentiu qualquer alívio por ter apenas sonhado, por ter apenas desejado. 

Atena não estava ao seu lado, sob o domo, dentro da cúpula. E como compreender este triste fato, se Tesla nasceu no isolamento? 

Pensou em voltar a sonhar, especular de forma inconsciente. Mas tornou-se racional antes que a sensação de messianismo, em um mundo de um único habitante, sumisse de sua caixa craniana. Foi então que Tesla se deu conta de seus intratáveis sentimentos humanais. 

Tesla percebeu que estava absolutamente sozinho e não relativamente acompanhado, imerso na densa atmosfera de sua cúpula. Ele precisava relatar sua experiência onírica para alguém disposto a refletir, pois sentiu a vivência da verdadeira sensação de propósito, de morte. E se aquela experiência sonhada for de fato a sensação de morte, esta é uma informação incomensuravelmente valiosa. Trata-se da descrição da morte como ela honestamente é, sem poluições sensoriais, sem postulados morais. Morte é solidão. E é também o fim. É onde e quando tudo acaba. E tudo acaba de forma muito rápida, em um branco infinito, surdo e mudo e, depois, inconsciente. E como ter consciência da inconsciência? Morte é o ponto sem retorno. Apenas isso.

É claro que a visão dos prédios impossíveis foi apenas um sonho, um desejo não arquitetado, uma visão onírica que jamais poderia ser traduzida na forma de imagens, como o senso comum as concebe. Mas ninguém até hoje realmente voltou da morte, para relatar como ela é. Nem mesmo Tesla conseguiu isso, ainda. Em seus sonhos com a morte, voluntários ou não, Tesla apenas nutria uma ilusão de fim, sem atingi-lo. E aquilo que o senso comum dos humanos certifica como morte é conhecido pelo rótulo de "morte cerebral". Ninguém até hoje retornou da genuína e fatídica perda de consciência funcional, na qual cada neurônio relevante perde seu caráter operacional de maneira irreversível. 

Tesla é talvez.

Talvez o Humanal tenha apenas alucinado em seu mar de fantasias e desejos, de acordo com suas crenças pessoais ainda não testadas. Mas um dia, cada humanal morrerá. E, neste solitário dia, cada humanal talvez descubra se este sonho vivido em solidão de fato retrata a morte como ela é. E esta será a descoberta de profundo isolamento, que jamais poderá ser revelada a quem quer que seja. Pois talvez a morte seja realmente o fim de tudo, o propósito da vida. E, ao conhecê-la em sua mais reveladora intimidade, jamais temos a chance de retornar. Uma vez que o propósito é atingido, carece de sentido o replay da vida. 

A única maneira de conquistar o replay da vida é através de um mergulho em um tempo onírico relacional e não absoluto, no qual eventos simétricos são contrapartes congruentes. Em outras palavras, é preciso morrer dormindo, para domar o domo da imortalidade.

Sherlock cogita:

- Humanos julgam que a morte é o fim do propósito da vida, como se a vida se sustentasse apenas nela mesma. No entanto, precisam entender que a morte é exatamente o propósito da vida. Este é o seu fim! Afinal, homens vivem em um espaço-tempo absoluto. Para que não se encontre o fim, é necessário viver em um mundo no qual se ouça uma única mão batendo palmas, parabenizando entusiasticamente a divina revelação. Quem realmente sabe, bate palmas, como uma criança feliz.

O fato é que aquele sonho, com exóticos prédios de inefável arquitetura, ofereceu ao Humanal uma nova perspectiva sobre a morte. Ele agora alimentava mais do que nunca a desoladora vivência de que morte é solidão. Morte é a visão que não pode ser traduzida na forma de imagens concebíveis em espaço absoluto. Diante da morte não existem linguagens, pois morte é solitude. E não há com quem dialogar no apartamento. Assim como uma só mão não pode bater palmas em espaço absoluto, um apartado locutor não pode dialogar em um universo de verdades absolutas.

- Não tenho medo da morte - admite Tesla - Encaro a inevitável como algo de meu ser, dentro das perspectivas de minha fértil ingenuidade. Mas sinto que devo descrever o que aqui vivi. Sinto que posso morrer a qualquer momento. E não quero deixar para trás o que posso fazer agora. Sinto triste agonia pela profunda ignorância de minha consciência. Funciono muito melhor quando durmo.

Sherlock, o crítico invisível, questiona:

- Tesla está morto? Como? Aconteceu algo que não vi? Desculpa! Acabei me distraindo.

Tesla recorda a irritante dialética de Deus-Homem. Não se pode confiar na memória, para recordar palavras tão triviais. Mas se Deus-Homem não as disse, certamente poderia e deveria ter dito. É uma questão de simples e reconfortante congruência entre o que se espera ouvir e o que se necessita escutar. É uma questão de consistente contradição.

De tanto olhar para o chão,
Já não se vê mais o céu.
De tanto olhar para o sal,
Já não se vê mais o mel.

De tanto olhar para o trem,
Já não quer mais viajar.
De tanto olhar para si,
Já não quer mais se olhar.

De tanto olhar para o fim,
Já não se tem mais terror.
De tanto olhar pra nudez,
Já não se faz mais o amor.

De tanto olhar caviar,
Já não quer mais comer pão.
De tanto olhar para si,
Já não quer mais o perdão.

De tanto olhar pro real,
Já não se teme Satã.
De tanto olhar pro azar,
Já não se vê talismã.

De tanto olhar pro que é bom,
Já não quer mais ver o vil.
De tanto olhar para si,
Já não quer mais ter perfil.

De tanto olhar para o Sol,
Já não se vê mais a Terra.
De pouco olharem pra paz,
Ainda querem a guerra.

Aquelas palavras ecoaram na mente de Tesla como voz distante no tempo e no espaço, em uma consciência confinada por percepções absolutas de mundo.

Sherlock não resiste. Precisa externar, ainda que apenas internamente, em um diálogo relacional:

- Insatisfação! Insatisfação é o primeiro sentimento-chave! A insatisfação matou Tesla. De tanto desejar, perdeu o desejo. E agora ele vive a morte. Insatisfação é o começo do sonho. O sonho é o começo da jornada. A jornada é o caminho para o fim. O fim é o propósito da vida.

Morte define vida. Aquilo que não vive, jamais morre. O universo jamais morrerá, pois não vive. Apenas é. O que morrerá é aquilo que o universo representa para os seres vivos, quer eles se julguem vivos ou não. São mortais apenas os seres vivos. Se, em alguma manhã de domingo, o universo for diluído a uma tênue e fria massa de pó ou se simplesmente colapsar para um Big Crunch, tal qual Big Bang invertido, ou esfarelar em um Big Rip, ainda será um universo. Mesmo que não seja reconhecido como universo por seres vivos que simplesmente morreram, nada mudará o fato de continuar sendo o universo. O universo simplesmente não pode morrer. Carece de propósito. Apenas a vida tem um fim. E é este fato que diferencia vida de não-vida. 

Tesla está morto porque já não mais deseja a vida, mas apenas o propósito da vida: o seu fim. Etapa 1. 

Trombetas reverberam, anunciando o despertar do conhecimento. Sim, pois conhecimento não vem de fora. Conhecimento deve ser despertado dentro de cada um de nós. E então a liberdade, em primeiro estágio, se fez. 

Sherlock enfatiza para o leitor:

- Ouça as trombetas! Ouça, sua besta carnal, criatura limitada! Ouça logo! Estou realmente impaciente.

Tesla finalmente encheu seus pulmões de motivação suprema e avançou contra as paredes da gigantesca cúpula que o abrigava, sustentava e enclausurava. Avançou para o seu propósito. Avançou na direção que o levaria para fora da cúpula, como um pássaro que sai de seu ovo, como um bebê que abandona o ventre da mãe, como um astronauta que escapa da gravidade. 

A percussão que acompanha as trombetas repercute o bater cardíaco da brutalidade da vida. O Humanal avançou contra as paredes do domo com sangrenta força. Bateu violentamente contra as espessas paredes de vidro esverdeado, usando seu corpo de Humanal como martelo. 

Para martelar, é preciso um martelo. Para forjar um martelo, é preciso martelar. Tesla deveria sustentar a si mesmo. E, por isso, martelou. Martelou com o seu corpo. Tesla é seu próprio instrumento.

Rasgou pele e trincou ossos. Violou a repressão e impulsionou seu voluntário nascimento. Firmou-se em solo escorregadio e rompeu contra a postiça natureza. O Humanal não percebeu quando conseguiu e nem mesmo de que forma. Mas houve algum momento em que venceu os limites de sua origem. Rompeu a ponto de não ser mais possível ver a cúpula, ainda que olhasse para trás. Mesmo assim, não olhou. Este era o início da inevitável jornada de Tesla, o Humanal. Tesla queria conquistar o inevitável para todos. E, por ser um verdadeiro desejo, estava fadado a não conseguir realizá-lo. 

Muitas são as primitivas e grotescas mentes que creem na irresponsável visão de que o verdadeiro desejo sempre será recompensado com a gratificante realização. Nada mais miserável e enganoso do que a visão pavloviana de vida: dar para receber. O verdadeiro desejo deve transcender nossos instintos naturais, nossos valores morais, nosso egoísmo, nossas necessidades carnais. O verdadeiro desejo deve estar acima da cúpula da vida, deve ir além do fisicamente possível, do mentalmente concebível e do moralmente saudável. E Tesla deseja atingir tal nível. Tesla deseja a própria morte. Somente a morte pode libertar. E Tesla deseja liberdade. Deseja liberdade de si mesmo. Deseja saber o que há além da cúpula da vida que o sustenta.

Ao leitor cabe a nova advertência de que seus tabus devem ser deixados de lado. Tesla deseja se libertar de seus tabus. Seus e seus. E Sherlock conclui: 

- Não tema o desconhecido, mas o que pensa conhecer. Sua ingenuidade não radica em sua ignorância, mas na infeliz crença de que sabe alguma coisa.

Tesla estava livre, enfim, pelo menos de sua cúpula. Tesla nasceu involuntariamente no verde domo e agora estava voluntariamente livre daquele úmido, isolado e minúsculo mundo. Tesla rompeu, com insana dor, os limites de um mundo cupuliforme. É assim que se começa o início! E o Humanal fica surpreso com o que vê, agora que finalmente está do lado de fora.